António José Teixeira
António José Teixeira 22 de junho de 2018 às 13:00

Folha de assentos

Nas suas memórias, o vienense Stefan Zweig queixava-se do gigantesco retrocesso sofrido no mundo desde a I Guerra Mundial. O homem que viveu as duas Guerras identificou o nacionalismo e a xenofobia como as pragas maiores. Estão de volta no mais execrável esplendor. Basta olhar para a Itália, a Hungria, a Turquia, a Rússia ou até os EUA. Não é exagero falar de fascismos emergentes.
orçamento. Marcelo Rebelo de Sousa está preocupado. A incerteza interna e externa agravou-se e o clima pré-eleitoral também. A crise dos professores acentuou a inquietação social e os avisos à navegação sucedem-se. É preciso um Orçamento do Estado para 2019. Marcelo dramatiza e desdramatiza. Já ameaçou com eleições antecipadas; já se manifestou indiferente à fórmula partidária, envolvendo também o PSD; já responsabilizou a esquerda, por ser a solução óbvia - o Presidente sabe que o Orçamento do próximo ano é o cerne da legislatura e da estabilidade. Uma crise política quando Portugal enfrenta ainda debilidades económicas e é permeável à instabilidade internacional é tudo o que não precisamos. António Costa começou esta semana os contactos com os seus parceiros. Será uma longa negociação em que o acordo não é garantido, por muito racionais que sejam os cálculos. Na equação passou a estar também o PSD que, por muito que lhe custe, se disponibilizou para fazer acordos com o Governo. Pode ser o suficiente para libertar os parceiros da "geringonça" e colocar o PSD a pensar se quer, ou não, eleições. Terá António Costa espaço de manobra para escolher o seu destino? 

imigração. É a pedra de toque do projecto europeu. Representa não só a solidariedade devida à tragédia humana, mas também a abertura, o cosmopolitismo e a globalização. A velha Europa continua sem uma resposta comum enquanto vê engrossar as hostes xenófobas e nacionalistas. O novo governo italiano anti-imigração, que abandonou à sua sorte um barco com mais de 600 pessoas, e o ministro do Interior alemão, que desafiou Merkel a alinhar com um eixo de países que estimulam a xenofobia são apenas os casos mais recentes. O tema está na agenda da UE, a poucos dias da cimeira de Bruxelas, mas deve sobrar para a presidência austríaca, empenhada em fechar mais as portas europeias. A perdição da identidade, o fechamento ao outro, o proteccionismo comercial, o instilar do medo e do ódio abrem espaço crescente aos autocratas. Crescem os despotismos e os candidatos a déspotas. Musculam-se as democracias "iliberais" e afloram os comportamentos fascistas. A débil convicção europeia, o aumento das desigualdades económicas e sociais, a contemporização com desvios ao estado de direito, ao pluralismo e às regras democráticas abriram espaço à fortaleza xenófoba. Só falta mesmo Merkel ceder à deriva… 

alemanha. O partido bávaro CSU (União Social-Cristã), parceiro da CDU desde 1949, está a submeter Angela Merkel a uma prova de força anti-imigração que pode destruir a coligação e o governo alemão. Este abano xenófobo não se desliga dos ventos que sopram dos EUA. A pressão da extrema-direita interna (Alternativa para a Alemanha), de austríacos e italianos, somada às ameaças americanas, posicionou a CSU como "o partido alemão de Trump", como dizia esta semana Wolfgang Münchau. Já conhecíamos os muros, as expulsões e o fecho de fronteiras. Não tínhamos ainda chegado à malvadez de separar crianças dos pais e encerrá-las em gaiolas. Trump gosta e, provavelmente, os seus apoiantes também. A cereja em cima deste nojo é o anúncio de que os EUA vão abandonar a Comissão de Direitos Humanos da ONU. A comissão não será exemplar, que não é, o afastamento quer apenas sublinhar a recusa do multilateralismo. O tempo corre a favor dos nacionalismos e, talvez por isso, a crise alemã tenha impelido Merkel e Macron a darem um salto em frente na integração europeia. Um orçamento comum e um fundo de emergência para países em dificuldades serão passos em frente. Esperemos que não sejam apenas fuga para a frente. 

pedrógão. "O que foi feito à paisagem no último ano não é suficiente. Temos de nos preparar para o pior", diz Tiago Oliveira, um homem que conhece o poder do fogo e preside à Estrutura de Missão para a Gestão dos Fogos Rurais. Marcelo Rebelo de Sousa, que há um ano mantém vigilância apertada aos portugais ardidos, acredita que se fez o que se podia fazer. Talvez sim, talvez não. O desordenamento e o abandono de grandes parcelas do território são problemas permanentes, sempre a exigir compromisso. E como se conjugam com uma crescente incerteza climática tornaram-se ainda mais complexos. Sabemos tudo isto. O que não sabemos é se estamos mais preparados para "o pior". Não deveria ser preciso prova. O calor e o vento fizeram regressar a inquietação e a memória de Pedrógão. O topónimo será latino, talvez de origem céltica, e remete para "pedra branca". Pouco importa o simbolismo, apenas que a pedra é o testemunho da experiência humana. Ficaram muitas pedras nos caminhos devorados pelo fogo. Mais negras do que brancas. Um ano depois, o combate continua. 

censor. Quando passam 250 anos da criação da Real Mesa Censória, o historiador Rui Tavares publica a sua tese de doutoramento centrada na censura fundada por D. José I em 1768. "O Censor Iluminado - Ensaio sobre o Pombalismo e a Revolução Cultural do século XVIII" (Tinta da China) é uma obra fundamental para compreendermos aquele período dominado pelo Marquês de Pombal. A Real Mesa Censória substituiu três outras censuras, que tinham durado dois séculos: a dos bispos (Ordinário), a da Coroa (Desembargo do Paço) e a feita em nome do papa e do rei (Inquisição). Nos 9 anos da sua vigência, os "deputados" (assim se chamavam os censores) examinaram 1519 textos, das obras de Voltaire ou Espinosa, a receitas médicas, folhinhas de devoção, cardápios, calendários ou figuras de santos. Decidiam se os examinados eram dignos ou indignos da "luz pública", ou seja, viam-se a si próprios como guardiões das Luzes, o que não deixou de ser uma surpresa para a investigação de Rui Tavares. Das "palavras do poder" ao "poder das palavras", a dissertação é um livro de História e de histórias sobre uma instituição que nunca perdeu seguidores. Ou não fosse a censura "a última palavra sobre as palavras". 

cartoon. A 13ª edição do World Press Cartoon está exposta no Centro Cultural e de Congressos das Caldas da Rainha. É a segunda vez que cartoonistas de todo o mundo se concentram na terra de Rafael Bordalo Pinheiro, dando a ver 281 desenhos e representando 227 publicações de 54 países. É obra! Boas obras ao dispor do nosso olhar, traços fortes de um mundo visto por quem lhe conhece os sinais mais marcantes. Este ano, os temas mais salientes e premiados foram a liberdade de expressão, as fake news e Donald Trump. Sintomáticos e preocupantes. Os premiados deste ano são: Cau Gomez e Silvano Mello (Brasil), Fadi Abou Hassan (Noruega), Hicabi Demirci (Turquia), Luc Descheemaeker (Bélgica), Marilena Nardi (Itália), Nedeljko Ubovic (Sérvia), Peter Nieuwendijk (Holanda) e Thomas Antony (Índia). Pela primeira vez, foram aceites trabalhos publicados em websites em que se faz jornalismo profissional. O grande maestro deste encontro de humores e culturas é o cartoonista António que, há muitos anos, também ele, nos abre os olhos para o que não pode ser ignorado. Vale a pena ir às Caldas. Sorrir, rir e pensar no World Press Cartoon. Até 28 de Julho. 


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