A república das “virgens ofendidas”
Este fenómeno não é apenas injusto para os visados. É corrosivo para a própria democracia. Porque quando tudo é escândalo, nada é verdadeiramente escandaloso. Quando todos são suspeitos, ninguém é confiável. E quando a indignação se banaliza, perde-se a capacidade de distinguir o que é grave do que é apenas ruído.
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Há em Portugal uma estranha proliferação de “virgens ofendidas”. Multiplicam-se nas redes sociais, nos comentários televisivos, nas colunas de opinião improvisadas à pressa. São vozes prontas a indignar-se, rápidas a julgar, implacáveis na condenação, mas raramente disponíveis para, pelo menos, conhecer os factos. Vivemos um tempo em que a suspeita vale quase tanto como a prova. Em que a insinuação se transforma em título de jornal ou notícia de destaque num dos muitos telejornais e, de imediato, se converte em sentença. O processo é simples e perverso. Surge uma denúncia, alguém “sopra” um detalhe para a comunicação social, criam-se ligações, levantam-se dúvidas, sugerem-se intenções. A partir daí, a máquina entra em funcionamento. O ruído substitui a análise, a emoção ultrapassa a razão e, quando damos por isso, o visado já está condenado na praça pública. Não interessa se houve acusação formal. Não interessa se existe prova consistente. Não interessa sequer se o próprio teve oportunidade de se defender. O tribunal da opinião já decidiu e este, ao contrário dos tribunais reais, não admite recurso.
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