António Costa. O professor não sindicalizado
O clima económico português é bom, mas está longe de ser fantástico. Quando comparado com os restantes países europeus o crescimento é tímido, embora seja o maior do século.
A dívida vai caindo, mas em doses muito moderadas. Esta realidade vai sendo conhecida dos portugueses e a dúvida sobre a sua sustentabilidade vai perpassando alguns espíritos.
António Costa sabe que o sucesso eleitoral que deseja passa por inculcar na mente dos eleitores que a situação está muito melhor, que virou a página da austeridade e que foi encontrada uma receita equilibrada para o crescimento sustentado. Que não fez tudo o que queria, mas que fez o melhor que podia. É por isso que agora, quando alguns riscos pairam no ar, não pode pôr em risco o que já conseguiu.
Depois de um importante congresso, em que António Costa fez questão de informar os seus mais ansiosos camaradas que "ainda não tinha metido os papéis para a reforma", eis que passou ao ataque contra as pressões dos partidos de esquerda - e do seu próprio partido - definindo com clareza as linhas vermelhas do próximo Orçamento do Estado. A meta do défice é para respeitar e os impostos não são para mexer. Conclusão: não há dinheiro para pagar ilusões. Se bloquistas e comunistas não perceberem esta realidade pois que assumam as suas responsabilidades e se preparem para as consequências.
No melhor estilo de Vítor Gaspar, o primeiro-ministro usou a luta dos professores e dos seus sindicatos para demonstrar que não pode dar tudo a todos ao mesmo tempo. Reafirmou o velho desígnio socialista da educação enquanto base para o desenvolvimento do país, mas também disse que não é a situação remuneratória dos docentes que fará a diferença. No fundo, disse que precisa dos professores, mas que dispensa os sindicatos.
Este novo posicionamento, que será estendido caso seja necessário a todos os outros servidores do Estado, provocará desgaste nas relações com a sua atual base de apoio à esquerda. Mas, por enquanto, nada que coloque em risco a aprovação mais ou menos maquilhada do próximo Orçamento. Como sempre foi o seu principal objetivo, está atempadamente a criar condições de afirmação positiva no centro político. António Costa sabe muito bem que é aí que está a chave de um futuro êxito eleitoral.
Jurista
Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico
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