Uma flor de verde Pinho
Casos como o BPN e o BPP, as parcerias público-privadas, os submarinos entre tantos outros, prometiam muito, mas deram em quase nada no que à regeneração do sistema político diz respeito.
Depois dos discursos do 25 de Abril em que a regeneração dos partidos, a condenação do endeusamento dos políticos e o apelo à aproximação entre eleitores e eleitos foram tónicas dominantes, eis que parece ter surgido o momento certo para combater todos aqueles que contribuíram para formar a péssima ideia que o povo tem da política e dos políticos. E para começar, nada melhor de que zurzir num independente. Manuel Pinho serve como um bom exemplo para ilustrar a forma como os poderes económicos aprisionaram os poderes públicos. Não importa se há justificação. O que importa é agarrar esta oportunidade de ouro. Tão dourada é que já fez saltar Sócrates para fora do PS.
Ao longo da última década foram surgindo grandes escândalos que prometiam abalar os pilares do sistema político tal a gravidade das situações e a importância dos políticos envolvidos, quase todos ex-governantes. Casos como o BPN e o BPP, as parcerias público-privadas, os submarinos entre tantos outros, prometiam muito, mas deram em quase nada no que à regeneração do sistema político diz respeito.
A promiscuidade entre a política e os negócios não é novidade para ninguém e resulta de uma necessidade quase atávica de contar com o apoio do Estado para fazer crescer algumas empresas privadas e enriquecer mais rapidamente alguns empresários menos escrupulosos. São os poderes públicos que atribuem licenças, abrem concessões, privatizam ativos, fazem aquisições milionárias, atribuem apoios ou criam isenções. Atenta a dimensão do mercado português, o setor privado sempre foi tentado a recorrer ao protecionismo estatal como tábua de salvação para resolver os seus problemas e esconder as suas fragilidades.
É provável que o caso de Manuel Pinho, por incapacidade política do próprio, sirva para esconder muitos outros desmandos e seja utilizado para ilustrar a vontade que os políticos têm de voltar a ganhar a confiança dos cidadãos. Mas para a esperada renovação do sistema, como escreve Manuel Alegre no início do poema que serve de título a este texto, não bastará aos partidos ou aos seus líderes mais destacados, apenas uma "guitarra e um cantar de amigo" ou "chamar-te pátria minha" ou ainda "dar-te o mais lindo nome português". Vai ser preciso ir muito mais além.
Jurista
Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico
Mais lidas