Armando Esteves Pereira
Armando Esteves Pereira 29 de dezembro de 2016 às 20:40

Fantasma de natais passados

Qualquer turista que chegasse a Portugal antes do Natal facilmente concluía que a crise já tinha ido embora, tal era a fúria consumista que se via.

E os dados de levantamentos de dinheiro e pagamentos com cartão divulgados pela SIBS confirmam que as famílias portuguesas abriram os cordões à bolsa. Uma média de gastos de 210 milhões de euros por dia, de 28 de Novembro a 25 de Dezembro é um número que revela uma alteração profunda face aos natais da Troika. Em comparação com idêntico período do pior natal do ajustamento, o natal de 2012 onde se sentiu o brutal aumento de impostos de Vitor Gaspar, as despesas dos portugueses subiram 29%. Em dinheiro face a esses 27 dias de há apenas quatro anos, a diferença é de 1278 milhões de euros.

 

Parece distante esse natal em que as famílias apertaram o cinto e o discurso oficial de viver acima das possibilidades forçou ainda mais o travão dos gastos familiares.

 

Agora o discurso do Governo é diferente. Onde Passos via o copo meio vazio, Costa vê o copo meio cheio. Os funcionários públicos e reformados já se livraram os cortes draconianos, há menos desemprego, apesar da taxa ainda estar na patamar dramático dos dois dígitos. O sentimento das famílias é menos pesado.

 

Mas se à superfície tudo parece melhor e há alguns sinais positivos (o PIB arrebitou no verão e a campanha de marketing do perdão fiscal permite um encaixe, que conjugado com o adiamento de despesas resulta num défice historicamente baixo), na estrutura tudo permanece igual. Ou pior, a despesa da máquina do Estado e o custo da segurança social com as reformas é maior. A dívida pública continua a aumentar para níveis estratosféricos e está ainda por resolver a recapitalização da banca.

 

O icebergue que afundou Portugal em 2011 continua na rota de navegação. Basta uma tempestade para novo choque. Um País anémico que depende de apenas uma nota de uma agência de rating e da boa vontade da torneira do BCE, não está livre de regressar ao fantasma de um natal passado.

 

Director-adjunto do Correio da Manhã

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