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Avelino de Jesus 11 de Outubro de 2020 às 18:20

A evidência do colapso do SNS

Portugal revelou a pior prestação, bem destacada, entre os 30 países europeus, na tarefa de minorar - perante o impacto da pandemia - o número de mortos entre os seus cidadãos.

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Os elogios ao SNS - a saber o sistema de saúde estatizado - que dominam o panorama político e mediático e se reforçaram desde o eclodir da pandemia, revela um dramático alheamento da realidade. Se desde o início da pandemia se evidenciou logo a enorme fragilidade do modelo da organização do sistema de saúde, nas últimas 12 semanas, os dados que verdadeiramente contam (as mortes) revelam que o SNS colapsou.

 

Portugal revelou a pior prestação, bem destacada, entre os 30 países europeus, na tarefa de minorar - perante o impacto da pandemia - o número de mortos entre os seus cidadãos.

 

A tabela, que elaborei, a partir de dados brutos do Eurostat, fala por si, permitindo comparar as prestações dos sistemas de saúde dos países europeus desde a semana 11 (início das mortes excessivas em Portugal) e a semana 37 (última semana para a qual existem dados comparáveis).

 

Se na primeira fase da pandemia, a prestação do SNS foi sofrível, na actual fase, desde Julho, passou para a posição do pior entre os piores.

 

Entre as semanas 11 e 37 houve 7.094 mortes excessivas, das quais 3.454 nas semanas 11 a 25 e 3.640 nas semanas 26 a 37. Estes números, revelando um agravamento crescente das mortes excessivas, subavaliam, porém, a situação real, por duas razões.

 

Primeiro, como o número de mortes tende a diminuir devido ao progresso médico - como os valores da tabela, nas semanas de 1 a 10 revela - a comparação das mortes efectivas com a tendência - e não com as médias anteriores - mostraria um número superior de mortes excessivas.

 

Segundo, o número de mortes excessivas tenderá a agravar-se muito, uma vez que a diminuição da atenção para como os doentes não covid, para além deste efeito de curto prazo, terá efeitos ainda mais devastadores a médio e longo prazo.

 

Em geral, os países, após um primeiro embate da pandemia, recompuseram-se, adaptaram os sistemas de saúde e, no último período (semanas 25 a 37) trouxeram as taxas de mortalidade excessiva para níveis baixos ou nulos. Só 10 países em 30, com notável realce para Portugal, seguiram caminho inverso, e registam agravamento nas mortes excessivas. 

 

Em artigos que publiquei neste jornal em 11 e 12 de Maio chamei a atenção para o perigo da estratégia que se estava a seguir e a anunciar para o futuro. Em especial alertei para o perigo das mortes colaterais que a impreparação do sistema de saúde poderia potenciar. Infelizmente, o fracasso do actual SNS está a ser muito mais profundo do que o temido então. A incapacidade do poder político em aproveitar a crise para reformar o sistema - reforçando, ao contrário, os seus aspectos mais nocivos - arrastou os resultados que estão agora bem à vista de todos e a ser sentidos, dolorosamente, pelos que não podem recorrer ao sistema privado.

 

Na verdade, a pandemia apenas expôs, cruamente, a fragilidade já existente do SNS, abalando-o profundamente com um impacto de uma moderada dimensão. 

 

Economista e professor no ISEG

 

Artigo em conformidade com o antigo Acordo Ortográfico

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