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Cristina Casalinho 13 de Agosto de 2020 às 18:52

Postais de verão

No imediato, por questões de vantagens competitivas, os salários relativamente mais baixos dos novos entrantes no mercado de trabalho podem favorecer a reindustrialização da Europa; contudo, a prazo, os custos sociais, políticos e de sustentabilidade da procura serão insuportáveis.

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1. Acreditei que a pandemia, pela natureza temporária do grande confinamento, não produziria efeitos prolongados no modo de vida atual. Presentemente, reconheço que os efeitos da pandemia são variados, abrangentes e duradouros, implicando alterações significativas no funcionamento das economias. Apesar do carácter universal da crise sanitária, as consequências e a resposta dos vários países apontam para consequências assimétricas. Os dados europeus relativos ao crescimento económico no segundo trimestre de 2020 evidenciam essa diversidade de resultados. A queda do produto interno parece estar correlacionado com o número de infetados por 100 mil habitantes, embora com exceções: enquanto França surpreendeu negativamente, Itália espantou favoravelmente. A relevância do turismo não parece oferecer demasiado poder explicativo quando se consideram as maiores contrações do produto na Europa com o Reino Unido no topo da lista. A evidência mais recente apoiada em indicadores de alta frequência, como vendas a retalho, aponta para forte recuperação no início do terceiro trimestre, com destaque para a Alemanha, onde vendas e encomendas retomaram patamares anteriores à eclosão da pandemia. Porém, os analistas aconselham cautela nestas leituras, acreditando que o patamar de recuperação se situará abaixo dos níveis pré-covid e, consequentemente, as projeções para 2021 têm sido revistas em baixa.

2. Talvez mais importante que o impacto imediato da pandemia no crescimento económico será ponderar as implicações mais duradouras. Uma das consequências mais imediatas da covid-19 é a limitação à livre circulação de pessoas. Para além do óbvio efeito nas indústrias de turismo e relacionadas, a renitência em viajar, por um lado, e a incerteza em ser bem recebido, por outro, colocam desafios importantes ao investimento (ninguém investe num país onde nunca tenha ido – seja instalar uma nova fábrica ou comprar ações de uma empresa cotada [estratégia fora de um índice]), à inovação, ao envelhecimento da força de trabalho (renovada com a ajuda de imigrantes), à capacidade de aceitação da diferença. O ensimesmamento ou o fechamento é detrator do desenvolvimento económico, porque favorece soluções endogâmicas enquanto a diversidade gera resiliência.

3. A parcial reindustrialização do Ocidente, potencialmente acelerada pela pandemia, afigurava-se antecipável devido à extrema dependência de consumíveis e bens finais produzidos na Ásia. O regresso de parte da produção implica desafios concorrenciais não negligenciáveis: o fosso de custos produtivos (por exemplo: salários e energia) exigirá um maior esforço de robotização e aceleração da transição digital e energética. A potencial reindustrialização, segundo o modelo tradicional, colide com as preocupações ecológicas das populações das economias avançadas. Em que há necessidade de encontrar soluções energéticas social ou ambientalmente aceitáveis, mas igualmente e concorrencialmente viáveis, abrindo espaço para alternativas inovadoras ou revolucionárias.

4. Se a disseminação do teletrabalho favorece a deslocação da força de trabalho fora dos maiores centros urbanos e amplia a procura por povoações de média dimensão, em busca de melhor qualidade de vida, a parcial reindustrialização pode reforçar este fenómeno. Todavia, esta tendência não é totalmente isenta de custos, na medida em que é mais barato providenciar alguns serviços a 40 famílias ocupantes de um prédio de dez pisos do que detentoras de vivendas unifamiliares situadas na mesma rua.

5. A desigualdade económica tem-se agravado nos últimos anos. O Banco de Portugal, numa breve nota recente, refletiu sobre o facto de o envelhecimento populacional ser uma variável explicativa desta realidade. Por outro lado, os últimos dados do desemprego publicado pelo INE enfatizam que as populações menos qualificadas ou mais jovens apresentam-se mais vulneráveis às consequências económicas da covid-19. No imediato, por questões de vantagens competitivas, os salários relativamente mais baixos dos novos entrantes no mercado de trabalho podem favorecer a reindustrialização da Europa; contudo, a prazo, os custos sociais, políticos e de sustentabilidade da procura serão insuportáveis.

 

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