As encenações de Cavaco Silva
Reiteradamente, o Presidente da República menoriza o povo que o elegeu.
Em abril, com o lamentável discurso proferido na Assembleia da República, confirmou a falta de cultura democrática e deixou claro que iria proteger Passos Coelho, recusando aos portugueses o direito de renovar escolhas. Profetizou que, eleições legislativas, só "depois de encerrado o atual ciclo do programa de ajustamento".
Foi uma intervenção de caráter sectário e divisionista, insensível ao sofrimento e às desventuras dos portugueses. Nem o descontentamento geral – traduzido em greves e manifestações populares – evitou a tentação de amedrontar opositores com o fantasma da conflitualidade.
Mas, dois meses depois, é Cavaco que se deixa enredar na crise do governo, provocada pela demissão de Portas – o mal-amado da coligação, que assumiu a desobediência à sua consciência, a troco do cargo de vice-primeiro-ministro!
Rejeitada a remodelação proposta por Passos Coelho, exigiu acordo político com o Partido Socialista, que designou de "salvação nacional", condição que não aplicou quando investiu o governo PSD/CDS-PP e, em troca, prometia eleições antecipadas em 2014.
As consequências foram desastrosas. As exigências aos partidos do arco da governação, como era previsível, falharam. Os mercados penalizaram o país e o presidente foi forçado a empossar novo governo da velha coligação, desta feita com o CDS-PP reforçado.
As trapalhadas em que o Presidente se meteu levaram-no a manifestar desconfiança nos líderes da coligação e, apesar das garantias dadas sobre a renovação do acordo, obrigou-os a envolver os deputados na aprovação de uma Moção de Confiança.
Como não há duas sem três, perante a pesada derrota eleitoral do PSD, Cavaco reafirmou o discurso rançoso a que nos habituou. Comunicou que as eleições locais têm, apenas, dimensão local e que o governo deve ir até ao fim da legislatura.
Pensará Cavaco que o povo não percebe que esta ideia serve apenas para justificar a conduta que teve quando foi primeiro-ministro? Recordam-se que, perante uma derrota eleitoral do mesmo género, recusou extrair consequências políticas, mantendo-se no governo?
Ao que parece, as iniciativas do Presidente têm servido para afundar mais o país e, por mais que faça, creio, não conseguirá desfazer os disparates e reconquistar a simpatia dos eleitores.
Em defesa desta ideia, acrescento os mais recentes disparates de Cavaco.
Em entrevista concedida ao jornal sueco, Dagens Nyther, declarou que Portugal já saiu da recessão! E, para completar, acrescentou um ataque a analistas e políticos, que afirmam que a dívida portuguesa é insustentável, passando estes a ser tidos como masoquistas!
Se tivesse memória, recordar-se-ia de ter dito, em junho de 2010 e março de 2011, que a situação era insustentável e que as trajetórias da dívida pública e dívida externa eram, igualmente, insustentáveis e responsáveis pelas dificuldades que o país atravessava.
É fácil perceber que Cavaco já não procura a salvação nacional. Procura, isso sim, um bode expiatório para as embrulhadas em que está metido.
Ex-Deputado do PS
Este artigo de opinião foi escrito em conformidade com o novo Acordo Ortográfico.
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