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João Costa Pinto 26 de Maio de 2020 às 09:45

Como relançar a economia? – (II)

A vulnerabilidade da nossa economia ao impacto da pandemia faz com que os programas de apoio lançados ou a lançar, tanto no âmbito da primeira fase de combate ao vírus, como na segunda de relançamento, assumam uma importância crítica.

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1.No último artigo deixei em aberto várias questões: como avaliar o impacto da pandemia sobre a economia e qual a margem de manobra das políticas públicas para lhe responder? Qual o papel dos nossos bancos no quadro actual e qual a sua margem de actuação na estabilização da actividade económica e no relançamento do crescimento? Qual o alcance dos apoios globais da União Europeia, em particular às economias que se debatem com níveis elevados de dívida?

Quanto à primeira questão, é ainda muito difícil proceder a uma avaliação dos danos sobre o tecido produtivo, dado tratar-se de uma situação sem precedentes. Em particular, avaliar se a destruição de capacidade produtiva provocada pelo período de confinamento pode vir a dificultar ou mesmo a travar o relançamento e a recuperação.

Na verdade, o impacto final desta crise vai depender de múltiplos factores, em que se destacam: a duração do período de confinamento; a dimensão e a natureza dos programas de apoio às famílias, aos trabalhadores e às empresas; a estrutura produtiva da economia – peso dos sectores dos serviços, em contraposição aos sectores industriais e da construção – do seu nível de abertura e de dependência dos mercados externos; o lançamento de programas dirigidos à indução de procura interna e ao relançamento da oferta – consolidação da estrutura financeira das empresas, aumento da capacidade produtiva, inovação e redimensionamento; programas de investimentos em infraestruturas – tecnológicas, energias renováveis, transportes – capazes de contribuir para melhorias de eficiência e produtividade, tanto a nível micro, como sectorial e global.

A verdade é que a nossa economia é particularmente vulnerável quando avaliada à luz deste quadro: por um lado, o crescimento económico da última década foi sobretudo suportado por sectores de actividade que dependem e gravitam em torno da actividade turística que hoje assume uma importância crítica; por outro, a nossa estrutura produtiva caracteriza-se por um forte peso de pequenas unidades produtivas – micro empresas, empresas individuais e familiares, de pequena e média dimensão – com estruturas financeiras muito frágeis e com reduzida capacidade para absorver o choque sobre as suas tesourarias provocado pela paralisação da actividade.

Não deixa por isso de surpreender o aparente optimismo com que a Comissão Europeia elaborou as suas mais recentes previsões relativas ao comportamento da nossa economia, no corrente ano e no próximo – uma queda de cerca de 7%, seguida de uma recuperação significativa. Comportamento que pressupõe uma evolução da pandemia que permita uma reactivação das correntes turísticas e uma recuperação dos fluxos mundiais de comércio, em particular, de e para os nossos mercados mais importantes.

2. A vulnerabilidade da nossa economia ao impacto da pandemia faz com que os programas de apoio lançados ou a lançar, tanto no âmbito da primeira fase de combate ao vírus, como na segunda de relançamento, assumam uma importância crítica.

 

É ainda muito difícil proceder a uma avaliação dos danos sobre o tecido produtivo, dado tratar-se de uma situação sem precedentes.



Quanto à primeira fase, temos de ter presente que a responsabilidade central de um Governo num Estado democrático é assegurar a protecção dos seus cidadãos. Deste modo devem ser mobilizados todos os recursos necessários à contenção e ao controlo dos riscos médico-sanitários e económicos com que este vírus está a ameaçar as nossas comunidades, em particular os grupos económica e socialmente mais vulneráveis.

De acordo com as informações conhecidas, Portugal submeteu à Comissão programas de apoio que representam cerca de 2,5% do PIB, o que nos coloca na décima terceira posição numa tabela em que a Alemanha surge destacada em primeiro lugar, com 6,2% do PIB. Vai ser necessário tempo para avaliar se o esforço das nossas políticas públicas foi, nesta fase, o adequado. Assim como só o conhecimento dos apoios globais da UE vai permitir analisar os riscos para a União Monetária decorrentes de respostas assimétricas por parte das diferentes economias do euro. Já a nossa capacidade para responder à segunda fase de forma autónoma é muito limitada. Questões para outro dia (a continuar).

 

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