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Luís Amaral 18 de Maio de 2020 às 17:42

Covid-19, mobilidade urbana e recuperação económica

O confinamento deu-nos uma oportunidade de repensarmos e de organizarmos melhor a sociedade, com as ferramentas tecnológicas que hoje temos ao nosso dispor, e seria um desperdício não a aproveitarmos.

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O confinamento a que estivemos sujeitos permitiu uma tomada de consciência de que é possível outras formas de organização e colaboração da sociedade, com o incremento significativo da nossa presença digital para contactos e transações à distância. Uma percentagem significativa da população viu-se forçada a desenvolver a maior parte das suas actividades habituais remotamente, criando novos hábitos no lar.

 

Muitas pessoas, residindo nas áreas metropolitanas, viram-se com o bónus de uma, duas ou mais horas diárias, antes despendidas nas deslocações casa-trabalho, quase sempre temperadas pelo desgaste dos congestionamentos, associados às horas de ponta. Este bónus beneficia todos, como tiveram a oportunidade de constatar aqueles que continuaram a fazer, durante o confinamento, as mesmas deslocações pendulares que faziam antes.

 

A ausência de congestionamento sempre foi considerada um cenário utópico, hipotético e apenas discutido em abstracto. É interessante que o confinamento nos tenha revelado que a melhor solução pode estar do lado da procura, com a adopção de um determinado grau de teletrabalho por parte da sociedade, após décadas de políticas do lado da oferta, e que incluíram o aumento da fiscalidade dos combustíveis, restrições na oferta e custo do estacionamento, a aplicação de portagens à entrada das cidades e também a subsidiação do transporte público.

 

Na realidade em que vivemos hoje, quando se pretende que as pessoas voltem a consumir, alimentando a economia, disponibilizar tempo, antes consumido de forma não produtiva, assume uma importância vital. Com as deslocações profissionais a ocorrerem sem congestionamento, e a ausência das emoções negativas que o congestionamento tende a causar, teremos certamente um aumento da produtividade, crucial nesta fase de retoma.

 

Os benefícios não ficam por aqui. Sem congestionamentos nas horas de ponta, é possível oferecer serviços de transporte fiáveis e previsíveis, público ou partilhados. A imprevisibilidade associada ao congestionamento sempre constituiu um travão ao surgimento de modelos de negócio inovadores no âmbito da mobilidade.

 

Por último, e não menos importante, a redução significativa de congestionamento tem um forte impacte na saúde pública. O benefício social e económico pode parecer pouco tangível, mas é real, a longo prazo, com a redução da pressão no sistema de saúde pela diminuição da incidência das doenças provocadas pela poluição do ar.

 

O confinamento deu-nos uma oportunidade de repensarmos e de organizarmos melhor a sociedade, com as ferramentas tecnológicas que hoje temos ao nosso dispor, e seria um desperdício não a aproveitarmos. Devemos estimular o melhor que o "novo normal" tem para nos oferecer, sendo o objectivo incrementar a produtividade do país e fomentar mais rapidamente a recuperação económica. O Estado e as empresas têm a obrigação moral de contribuir para uma melhor organização da sociedade que advém do teletrabalho, seja total ou parcial, nas suas variadas modalidades de periodicidade, assim o desejem os trabalhadores.

 

Especialista em transportes e mobilidade, Mestre em Transportes, Técnico Superior no Metropolitano de Lisboa  

 

Artigo em conformidade com o antigo Acordo Ortográfico

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