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Virgínia Trigo 13 de Janeiro de 2013 às 23:30

Garage Café

As paredes do Café estão decoradas com gravações de mãos de empreendedores que utilizam o espaço como escritório na esperança de um dia serem suficientemente famosos para que Su Di possa contar a história de onde tudo começou.

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Quando em 1988 a Academia Chinesa das Ciências recomendou a criação do Parque Tecnológico de Zhongguancun em Pequim, por certo não teria a menor ideia de que, 24 anos mais tarde, precisamente em Abril de 2012, ali viria a nascer o Garage Café. Este é um dos 52 parques tecnológicos criados pelo governo chinês na década de 1980 com a intenção de desenvolver a ciência e a tecnologia. Diz a história que a ideia surgiu depois de um físico de fusão nuclear da Academia ter visitado os Estados Unidos regressando com a ideia de estabelecer na China algo equivalente a Silicon Valley. 

 

Zhongguancun tem beneficiado de um forte apoio do governo e da proximidade a duas reputadas universidades chinesas e, tendo sido o primeiro desses 52 parques, acabou mesmo por ser hoje conhecido como o Silicon Valley chinês.

 

Respondi claro que sim, sem hesitar, ao convite da minha amiga He Di para, num destes dias tristes de Pequim, visitarmos o Garage Café. Entre 1993 e 2002 tive a sorte de estudar um destes parques, Tian He em Cantão, para o meu doutoramento e tudo o que lhes diz respeito me interessa. He Di e eu conhecemo-nos em 2007 em Berkeley para onde fomos, ela de Pequim e eu de Lisboa, pela mesma razão: se queremos estudar inovação e criação de empresas a Califórnia é o lugar.

 

Talvez por causa disso confesso que fiquei surpreendida quando He Di, uma engenheira de "software", me disse que iria regressar à China depois do curso porque as oportunidades ali eram infinitamente mais interessantes. Não só ela, mas muitos dos seus colegas tencionavam fazer o mesmo. Em 2009, o governo chinês estimava que cerca de 100.000 estudantes no estrangeiro regressariam à China, mas na realidade um ano depois esse número foi de 134.800 que se juntaram a um milhão de engenheiros que a China forma todos os anos. A este potencial de talento corresponde um mercado de espantosas proporções: 477 milhões de utilizadores de internet (contra 272,1 milhões nos Estados Unidos) e 193 milhões de compradores "online" (contra 170 milhões nos Estados Unidos). Entretanto em 2011 o comércio eletrónico atingiu 121 milhares de milhões de dólares, um crescimento de 66% em relação ao ano anterior. He Di tinha razão.

 

Eu já ouvira falar do Garage Café como local de encontro de atuais e futuros empreendedores, um projeto aparentemente desinteressado e idealista de Su Di, o seu fundador, onde dezenas de sonhadores se podem encontrar e trabalhar durante todo o dia, com acesso gratuito à internet, pelo módico preço de um café que ali custa cerca de 3 dólares. Su Di fala pouco inglês, mas ainda assim não desdenha conversa. Enquanto mantém o olhar sobre a clientela, aproxima-se da nossa mesa curioso sobre o que faremos ali. O espaço é enorme, luminoso e convidativo, mas não nos enganemos: este não é local para descansar enquanto nos refugiamos do "smog" de Pequim e em breve atraímos uma pequena multidão desejosa de saber se estaremos a trabalhar em algo potencialmente interessante.

 

As paredes do Café estão decoradas com gravações de mãos de empreendedores que utilizam o espaço como escritório na esperança de um dia serem suficientemente famosos para que Su Di possa contar a história de onde tudo começou. Com acesso condicionado ao exterior, mas com todos os equivalentes ocidentais - o Ren Ren é o Facebook da China, o Sina Weibo é o Twitter da China e o Baidu é o Google da China - He Di acredita que o seu país é o caldeirão onde a internet forjará as próximas empresas de milhares de milhões de dólares que um dia irão encantar o mundo.  

 

Professora no ISCTE Business School

Coluna quinzenal à segunda-feira 

Artigo escrito ao abrigo do Novo Acordo Ortográfico

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