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Virgínia Trigo 01 de Maio de 2016 às 17:26

"Made by China"

"Made by China" é a marca da influência que a China tem no mundo e quão central ela é no nosso futuro. Sendo um país tão diferente do Ocidente, isso deveria pelo menos interessar-nos.

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Num seminário recente em Macau, falando sobre a China para representantes de todos os países de língua oficial portuguesa, perguntaram-me como foi possível este país tornar-se não apenas na segunda economia do mundo, o que dada a sua dimensão é tarefa fácil, mas sobretudo passar de um rendimento de 154,97 dólares per capita em 1978 para 7.590 dólares em 2014, retirando no processo mais de 800 milhões de pessoas da pobreza. A pergunta tem uma resposta simples: fazendo. O silêncio que se instalou na sala tinha mais de mil palavras enquanto, na mais absoluta sintonia cultural, avaliávamos a verdadeira densidade da palavra "fazendo".

 

Por exemplo, foi um grupo de camponeses numa aldeia remota numa província do Leste da China que, no princípio dos anos 1980, iniciou um processo ilegal de subcontratação de terras o qual, ao replicar-se em muitos outros locais e em muitas outras indústrias, sem qualquer proteção legal, se iria tornar numa das mais bem sucedidas inovações políticas do século XX. Começou ilegalmente a partir das bases, mas o Estado primeiro fechou um olho e semicerrou o outro, deixou "ir fazendo" e só depois legislou quando a prática se disseminou e se tornou bem sucedida e consistente. Este sucesso é não só uma demonstração do dinamismo social da China, mas também da capacidade de resposta do sistema político às mudanças sociais, uma constante das décadas de 1980 e 1990. Um país que trabalha em conjunto, como uma equipa.

 

Para as muitas empresas multinacionais que se instalaram na China com o objetivo de produzir barato, não terá sido fácil conjugarem o "made in China" com o "made for China" e logo a seguir com o "made with China".  À medida que o país foi enriquecendo e se tornou evidente a necessidade e a atratividade de conceber produtos específicos para os consumidores locais, também se foi percebendo a vantagem de produzir com e a partir da China.

 

Foi no virar do século que o país se decidiu pela estratégia de começar também ele a investir no exterior, influenciando ainda mais as nossas vidas. Em Portugal esse investimento é uma percentagem ínfima e terá já atingido o seu pico, mas não é assim por essa Europa, África e América fora. Mais recentemente chegou a vez da Ásia através de duas estratégias complementares: a criação de um banco de investimento, o AIIB, e a construção de um vastíssimo e diversificado conjunto de infraestruturas por toda a Ásia passando por mais de 40 países até Veneza e depois Roterdão. Uma nova rota da seda cobrindo 65% da população mundial. O projeto, designado por "One Belt, One Road" revelado em 2014, já foi iniciado e prevê-se que esteja completo no 100.º aniversário do estabelecimento da RPC em 2049. Não duvidemos: o OBOR está a ser recebido com entusiasmo na região e a ser visto como uma oportunidade de desenvolvimento e de cooperação. Um golpe de mestre, no dizer de alguns. Enquanto aplica parte dos 4 triliões de dólares que detém em moeda estrangeira na expetativa de um retorno razoável, a China mantém fábricas vitais em produção, abre vias para escoar os seus produtos, ocupa a sua população e, aumentando a sua influência económica, intervém na estratégia e na política internacionais.

 

"Made by China" é a marca da influência que a China tem no mundo e quão central ela é no nosso futuro. Sendo um país tão diferente do Ocidente, isso deveria pelo menos interessar-nos.

 

Professora no ISCTE Business School

 

Este artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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