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O marasmo desportivo

Só uma perspetiva politicamente pobre e culturalmente frágil pode encarar o desporto, apenas, como um sistema de simples entretenimento ou de mero espetáculo de massas e, consequentemente, dispensar o papel social relevante que pode assumir junto de outras políticas públicas.

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A proposta de Orçamento do Estado para 2021 ao reduzir o financiamento da administração pública desportiva e ao não incluir quaisquer medidas excecionais para a situação que estamos a viver prova, de forma irrefutável, a pouca importância conferida ao desporto, no preciso momento em que se avolumam os casos de clubes que não sobrevivem ao impacto de uma crise sem precedentes, mas na qual se inscreve a prioridade – quiçá por artes mágicas - em pôr Portugal, até 2030, no lote dos 15 países com mais prática de atividade física e desportiva da União Europeia.

É certo que o documento – o principal instrumento de política pública – é suficientemente ilegível para o comum dos mortais, mesmo para os especialistas, para se poder argumentar que algures existe uma dotação que afinal evidencia a possibilidade de alocar mais recursos. Exercícios que ficam no domínio das promessas e das boas intenções, mas que não alteram a questão de fundo.

Num outro plano, a menos de dois meses de Portugal assumir a presidência da União Europeia dispensou-se, até à data, o contributo dos parceiros desportivos no sentido de construir uma agenda de prioridades capaz de responder ao impacto económico, social e sanitário da crise pandémica na Europa.

Obviamente estas não são realidades novas, no que respeita ao abandono político do desporto. Pelo contrário, são um traço comum no tempo, apenas interrompidas por breves oportunidades de capitalizar politicamente importantes conquistas desportivas. E abandonar o desporto é não nos sentirmos politicamente responsáveis pelos custos sanitários, educativos e económicos que é ter uma população com baixos hábitos de atividade física e desportiva.

Se a educação, a saúde, o emprego, a economia e a coesão social estão, e bem, na primeira linha das preocupações políticas então dispensar o contributo do desporto é, à partida, empobrecer os resultados a alcançar no final. Não porque o desporto tenha qualquer efeito mágico ou sobrenatural, mas por força da natureza estrutural em que é produzido, maioritariamente assente no voluntariado, logo incorporando uma significativa atividade não remunerada, de baixo custo, mas criando um valor económico e socialmente relevante.

Só uma perspetiva politicamente pobre e culturalmente frágil pode encarar o desporto, apenas, como um sistema de simples entretenimento ou de mero espetáculo de massas e, consequentemente, dispensar o papel social relevante que pode assumir junto de outras políticas públicas.

Pese embora o Vaticano também defenda estes princípios, o que aqui se afirma não é um ato de fé. Está evidenciado em dezenas de relatórios nacionais e internacionais, em milhares de textos publicados por esse mundo fora e em práticas governativas de muitos países. O que nos falta?

Tudo seria bem mais fácil no dia em que a iliteracia desportiva passasse a ser cultural e politicamente insustentável, e socialmente reprovável. Só tendo plena consciência deste facto e da verdadeira dimensão do problema, poderemos ajudar a reverter uma situação que, não sendo nova, assume particular incidência em tempo de crise.

Ao longo de tantos anos custa a aceitar este marasmo. Custa a aceitar que o desporto seja elevado à agenda política apenas quando algum resultado de nível internacional atrai a visibilidade mediática. Custa a aceitar que as prioridades políticas para o desporto estejam reféns da agenda mediática, a qual pela natureza das coisas é quase sempre monotemática e efémera. Custa a aceitar que as salas e os corredores do poder político não se abram às preocupações de todos os que no terreno enfrentam competições suspensas ou adiadas, ginásios, piscinas e campos encerrados, restrições à mobilidade e perda de receitas.

É urgente reverter a situação. Se não o fizermos, e se não conseguirmos centrar o desporto na vida política do Governo, mas também daqueles que escrutinam a sua atividade e exercem uma oposição responsável, então não seremos capazes de elevar o valor desportivo do país e as suas potencialidades únicas em domínios como a saúde, a educação, o turismo, o crescimento económico e o emprego, nem tão-pouco a aspirar resultados de excelência que projetem o país no panorama internacional e nos desaloje da cauda da Europa.

 

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