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Edson Athayde 26 de Fevereiro de 2020 às 09:20

A evolução do diabo

Recomendo o visionamento de “The Shield” como um alerta feito lá atrás sobre um tipo de mundo e sociedade que agora se quer impor: pessoas, políticos, lideranças que acreditam tão absolutamente na própria verdade que são incapazes de ouvir ou respeitar qualquer contraponto.

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Assim como os meus pares geracionais, descobri boa parte dos clássicos do cinema em lojas de bairro chamadas clubes de vídeo. Quando a janela de tempo entre a exibição de uma longa nos cinemas e a chegada ao formato VHS poderia ser de anos, era na companhia dos filmes antigos que passávamos os fins de semana e feriados.

Poucas décadas se passaram e já nem lembramos desses tempos. Temos os serviços de streaming a trazer boa ficção de todas as épocas e em todos os formatos.

Como assino as várias plataformas disponíveis (Netflix, Amazon, HBO, Apple e GloboPlay), vivo assoberbado a tentar acompanhar os lançamentos. Procuro registar aqui neste meu espaço as novidades em séries que se destacam. Mas há muito mais nas prateleiras virtuais que merece atenção.

Um bom exemplo disto é a série “The Shield”, cujas sete temporadas estão à disposição dos assinantes da PrimeVideo.

A proposta da série é estranha. Logo no primeiro episódio o protagonista (um policial durão, careca como um ovo, de estatura mediana para baixa e algum sobrepeso) mata um membro da própria equipa, na tentativa de acobertar um esquema de corrupção em que está metido.

Daí em diante, tudo o que faz Vic Mackey, o tal policial sujo, não passa de consequência ou reflexo deste crime original. Como sabemos do pecado, somos convidados a questionar os nossos próprios valores morais: vale tudo para conter um mal maior?

“The Shield” ganhou muitos prémios entre 2002 e 2008, o período em que esteve no ar. Foram merecidos. Os guiões nada tinham de maniqueístas, as interpretações eram viscerais, realização e montagem ágeis e contundentes.

É fácil encontrar no filme “Tropa de Elite” e no seu conflituoso Capitão Nascimento ecos de “The Shield”. Difícil imaginar que o criador da longa, José Padilha, não tenha sido influenciado pela série.

Mackey e Nascimento são irmãos gémeos na truculência, na forma de encarar a liderança de uma organização policial como se fossem cruzados numa guerra santa. Deixam um rasto de sangue e infelicidade por onde passam. Como se fossem Midas ao contrário, tudo o que tocam dá errado.

Ególatras, acreditam que só eles estão certos, que os seus métodos não precisam de regulação, que o soco e a bala são a resposta ideal seja qual for o problema equacionado. Claro que no exercício das suas teses acabam por fazer algumas coisas boas, mas estas não duram. Até elas redundam em danos colaterais terríveis.

Recomendo o visionamento de “The Shield” como um alerta feito lá atrás sobre um tipo de mundo e sociedade que agora se quer impor: pessoas, políticos, lideranças que acreditam tão absolutamente na própria verdade que são incapazes de ouvir ou respeitar qualquer contraponto. Resta saber se terão o mesmo destino de Vic Mackey ou se o diabo da intolerância, como um vírus, anda a ficar cada vez mais forte.

Ou como diria o meu Tio Olavo, a citar Millôr Fernandes: “O mal do mundo é que Deus envelheceu e o Diabo evoluiu.”

 

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