Edson Athayde
Edson Athayde 09 de julho de 2019 às 18:31

Chega de saudade

Como todos os cantores da época tinham vozeirões, João quis ser diferente, acrescentou à sua música a palavra cantada em sussurro. E com estes dois elementos, a batida sincopada e a voz pequena, desenhou um Brasil bem diferente do que havia à sua volta.

Memória é igual a soma do presente mais tempo. Estou agora no palco do Coliseu dos Recreios de Lisboa. Trauteio uma espécie de bossa nova em homenagem a João Gilberto. Não, não me tornei cantor, nem estou a relatar um sonho. Estou mesmo no palco do Coliseu, onde decorre o evento Rua das Pretas, criado e comandado pelo músico Pierre Aderne.

 

Aliás, foi Pierre que momentos atrás nos comunicou o falecimento de João Gilberto. O concerto ia a meio e a plateia estava tão alcoolizada (trata-se de uma sessão de vinhos e música) que a notícia em vez de gerar tristeza, provocou um brinde coletivo. "Viva João!", alguém gritou ao pé de mim. "Sim, viva!", pensei com os meus botões. Mas há algo mais além do falecimento de um artista nesta notícia.

 

Não há nada maior do um ponto de vista. Esqueça a realidade, a história. Esqueça. Um ponto de vista bem explicado, bem apresentado, bem narrado é capaz de vencer tudo isto.

 

 

Se tem dúvidas, basta ver o exemplo de João Gilberto, um músico que só encontrou o seu caminho de sucesso após penar anos de frustrações. Foi durante a travessia de um inferno particular, a perambular por cantos escondidos de um vasto Brasil, que João descobriu a alquimia da batida de samba que viria a chamar-se bossa nova.

 

Como todos os cantores da época tinham vozeirões, João quis ser diferente, acrescentou à sua música a palavra cantada em sussurro. E com estes dois elementos, a batida sincopada e a voz pequena, desenhou um Brasil bem diferente do que havia à sua volta.

 

De latino melodramático, espécie de mexicano que falava português, o brasileiro viu-se num espelho distinto através da bossa nova. Narciso, imaginou-se mais "cool", mais jazz, mais vanguarda.

 

Ao menos, aquele brasileiro que vivia nas grandes capitais. O que foi o suficiente, pois era essa gente que produzia e moldava a cultura do país.

 

O imaginário projetado pela bossa nova não se ficou pela música. Invadiu a moda, o design artístico e industrial, o cinema, a fotografia, os usos e costumes, a própria ideia de Brasil.

 

Juscelino Kubitschek foi eleito com a alcunha "o presidente bossa nova". Brasília foi erguida para ser a "capital bossa nova" (não confundir com a capital da bossa nova, que é e sempre foi um pequeno território, apenas algumas quadras do bairro de Ipanema).

 

O ideário que apresentou o carioca (mais tarde extrapolado para os brasileiros todos) como boa praça, lírico e charmoso, nada mais foi do que uma invenção da bossa nova de João Gilberto.

 

Seminal, ele inspirou os jovens Caetano, Gil, Chico Buarque e milhões de outros no Brasil e no mundo. Até Roberto Carlos teve um primeiro disco onde imitava João Gilberto. Até Frank Sinatra, gravou alguns decibéis mais baixos, só para mostrar que também reverenciava João. Sem falar de Tom Jobim, o maestro que ajudou no parto da bossa nova.

 

Como dizia lá no começo, a perda de alguém assim como João representa mais do que a morte de uma pessoa. Entre variadíssimos significados, ela, a morte, acontece justamente num momento em que o Brasil parece estar a desintegrar-se. Ao menos, aquele Brasil imaginado como bonito, generoso e bom. É um Brasil em extinção, mas que ainda pode ser encontrado em cada sessão da Rua das Pretas (procure no Google quando vai ser, recomendo vivamente a visita). Aproveite enquanto pode porque nada, nem mesmo João Gilberto, dura para sempre. 

 

Ou como diria o meu Tio Olavo, a cantar baixinho: "Vai minha tristeza/E diz a ela /Que sem ela não pode ser/Diz-lhe numa prece/Que ela regresse /Por que eu não posso mais sofrer/Chega de saudade/A realidade/É que sem ela não há paz/Não há beleza/É só tristeza/E a melancolia /Que não sai de mim/Não sai de mim, não sai."

 

Publicitário e Storyteller

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