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Edson Athayde 18 de Agosto de 2020 às 19:15

O contrário do bom senso

Quem estudou o “Orvil” diz que lá está o fundamento teórico do bolsonarismo e a linha narrativa do próprio Bolsonaro. Muitas das suas teses podem ser ouvidas nas falas do Presidente brasileiro.

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A vida ao contrário. A realidade ao contrário. A verdade ao contrário. Vivemos num mundo onde os sinais de mais e menos foram trocados, o Polo Sul foi para cima e o Polo Norte está lá em baixo.

Se tudo é narrativa (e, sejamos claros, tudo é narrativa) o fio do enredo anda enrolado. Quem pensar estar do lado certo, pode ser que esteja do lado errado. E vice-versa.

“Orvil” é a palavra “livro” de trás para a frente. Mas é mais do que isto, é uma visão deturpada da história, uma construção sem pé nem cabeça sobre o passado brasileiro, mas que ajuda a inspirar o hoje daquele país.

Para entender o que é o “Orvil” é preciso saber da existência do livro “Brasil Nunca Mais”, publicado em 1985 e que era a ponta do icebergue de um projeto mais vasto, ecuménico (tinha na sua linha de frente líderes católicos, judaicos e protestantes) que fez um invulgar raio-x da tortura no Brasil durante os anos da ditadura.

Diferente de outros regimes autoritários, que não costumam permitir registos oficiais dos seus desmandos, os militares brasileiros eram tão burocráticos que deixaram vasta documentação dos seus atos mais sórdidos.

O “Brasil Nunca Mais” trouxe a formalização pública de uma vergonha que eles preferiam esconder. Irritados, desenvolveram em segredo (a pedido do então ministro do Exército) uma resposta: “O Livro Negro do Terrorismo no Brasil”, também intitulado “Orvil”.

Na obra, há uma teorização sobre o que julgavam ser um grande plano do comunismo internacional para dominar o Brasil, um processo que teria começado em 1992 e nunca teria parado realmente.

Delirante, problemático, o documento foi descartado pelo então Presidente José Sarney. Caído na clandestinidade, circulou através de parcas 15 cópias durante décadas. Para alguns, o “Orvil” não passava de uma lenda urbana. Para (muitos) outros, foi uma base de arregimentação.

Uma investigação jornalística de 2009 acabou por confirmar a sua existência e a trazer luz para os seus conteúdos. Em 2012, as suas mais de mil páginas foram, enfim, publicadas num livro que pode ser comprado facilmente pela internet (Editora Schoba).

Quem estudou o “Orvil” diz que lá está o fundamento teórico do bolsonarismo e a linha narrativa do próprio Bolsonaro. Muitas das suas teses podem ser ouvidas nas falas do Presidente brasileiro.

Isto é importante. Saber que há método e há base intelectual (mesmo que equívoca) para o bolsonarismo só demonstra que ele é mais perigoso do que parece. O “Orvil” propõe a destruição, a partir de dentro, de todas as instituições democráticas e uma guerra cultural sem tréguas. No Brasil, só poderá restar uma única ideologia (a da extrema-direita), uma única verdade (a autorizada pelos órgãos de Estado), um único tipo de cidadão (aquele que aceita ter uma liberdade mitigada, com grande parte dos seus direitos em suspenso). Um pouco mais de um terço da população brasileira já não vê nenhum problema nisso, muito pelo contrário.

Ainda não li o “Orvil” mas já encomendei o meu exemplar. Pretendo ler com atenção. Sempre de máscara na cara, não por medo de apanhar covid, mas para disfarçar o mau cheiro que exala dos seus textos.

Ou como diria o meu Tio Olavo: “Nunca encontrei uma pessoa tão inteligente que não pudesse aprender algo com a idiotice alheia.” 

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