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Edson Athayde - Publicitário e Storyteller 10 de Julho de 2018 às 22:07

Os 12 javalis

Os inventos de Musk não serviram para nada. De resto, ficou-me um sabor de oportunismo. Mas pode ser só da minha cabeça, tenho de acreditar mais na boa vontade dos homens.

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Quem viveu os anos 70 de certeza lembra-se da tragédia envolvendo a queda nos Andes de um avião da Força Aérea uruguaia que transportava uma equipa de rugby. Foi em 1972, para ser mais exacto.

 

Das 45 pessoas a bordo, 29 sobreviveram ao impacto no solo. Como elas estavam isoladas na montanha (para o mundo exterior, a nave havia simplesmente desaparecido), 13 pessoas morreram ao longo dos 72 dias em que ficaram perdidas. Essas, as que morreram, tornaram-se o alimento necessário para a sobrevivência das outras.

 

As que restaram regressaram à normalidade da vida com um trauma imenso e uma história tão interessante quanto tétrica. À época, uma longa baseada no evento foi feita com grande sucesso de bilheteira. Seguiram-se livros ficcionais ou biográficos com êxitos variados. Dizem que a série "Lost" também bebeu dessa fonte.

 

Quando, em 2010, um grupo de 33 mineiros ficou soterrado no Chile, muitos associaram uma desgraça à outra. Mais uma vez tínhamos uma tragédia no colectivo, o destino a reunir num mesmo espaço pessoas a viver uma situação limite.

 

Agora, chegámos à Tailândia e aos 12 miúdos (que receberam o codinome de javalis pelo comando do resgate) que fizeram o mundo parar a respiração.

 

Desde que a notícia ganhou destaque (pelo que reparei, isso foi acontecendo aos poucos, um pouco por todo o planeta, mais ou menos a acompanhar as eliminações das seleções nacionais no Mundial; ou seja, um tema substituiu o outro em importância nos jornais e sites de notícias conforme o público de cada país foi querendo mudar de assunto).

 

A essa narrativa já por si comovedora acrescentou-se outra, a do homem providencial.

 

O mundo está cada vez mais perigoso. E para um mundo de problemas hercúleos, nada como super-heróis bem-intencionados.

 

A Marvel plantou as sementes, a realidade agora serve de estufa para o crescimento de árvores raras. Uma delas, a maior, é o senhor Elon Musk.

 

Musk não tem jeito de Superman, não o imagino com as cuecas vermelhas por cima das calças a voar por aí. Musk é Tony Stark, o milionário, mecenas das ciências bélicas, que nas horas vagas transforma-se no Homem de Ferro.

 

Musk é também um génio do marketing pessoal e avaliou o sucedido na Tailândia como mais uma oportunidade de provar que a tecnologia pode salvar o dia.

 

Os inventos de Musk não serviram para nada. De resto, ficou-me um sabor de oportunismo. Mas pode ser só da minha cabeça, tenho de acreditar mais na boa vontade dos homens.

 

Creio que teremos Musk mais vezes a querer desempenhar esse papel. O que é sintomático sobre os dias de hoje. Vivemos todos numa grande fábula que se renova à velocidade do Twitter.

 

Ou como diria o meu Tio Olavo: "Queremos ser todos ser Super-homem, somos Clark Kent."

 

Publicitário e Storyteller

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico   

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