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Edson Athayde 03 de Junho de 2020 às 20:20

#somos70porcento

A continuar nessa toada restará a Trump pouco mais do que terminar o seu mandato sem nenhuma dignidade, sair pela porta pequena da história e recolher-se ao mundo das celebridades vazias de onde nunca deveria ter saído.

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Alguns apontamentos do diário de um cronista (que vive sozinho em casa) em tempos de desconfinamento:

1. Nem sempre o sentido comum faz algum sentido. Quando platitudes como “ninguém é insubstituível” são levadas ao pé da letra, o resultado pode ser um completo desastre. É o que aprendemos com a série “The Last Dance”, em exibição na plataforma Netflix. Em 10 vibrantes episódios, acompanhamos a longa passagem de Michael Jordan pelos Chicago Bulls. Génio do basquete, Jordan desafiou até a lei da gravidade (e ganhou de Newton inúmeras vezes). Assim ajudou (às vezes, levou às costas) a sua equipa à conquista de uma impressionante coleção de títulos. Mesmo assim, Jordan não era uma unanimidade para a direção dos Bulls. Enciumado, o responsável pela gestão da equipa queria livrar-se do atleta para poder brilhar sozinho. Criou as condições que levaram à reforma algo precoce de Michael e com isto interrompeu a sua própria história de sucesso. Os Bulls transformaram-se numa pálida lembrança do que tinham sido. E o tal diretor foi também reformado. “The Last Dance” é diversão garantida mesmo para quem não se interessa pela NBA. É puro storytelling de qualidade. E traz uma lição fundamental para quem tem de gerir empresas: há sim talentos que são invulgares. Líder que abre mão de um Air Jordan em nome de um sucesso, digamos, mais democrático pode acabar por partilhar um fracasso retumbante.

2. Por falar em fracasso, a derrota tem neste momento um rosto bem visível: Donald Trump. Presidente de um país entregue ao caos (sanitário, económico e racial), Trump há meses que tenta voltar a controlar a narrativa, mas a vida insiste em trocar-lhe as voltas. Ele continua o mesmo tosco de sempre, a dizer as anormalidades que antes tornavam-se manchetes planetárias, no entanto, entretanto, contudo, nada parece mais funcionar. Incapaz de ser um elemento agregador, ativo jardineiro de intrigas, déspota e desbocado, nenhum americano que não seja feroz adepto do Partido Republicano (e nem mesmo muitos destes) está a aguardar que daquele mato saia algum coelho. A continuar nessa toada restará a Trump pouco mais do que terminar o seu mandato sem nenhuma dignidade, sair pela porta pequena da história e recolher-se ao mundo das celebridades vazias de onde nunca deveria ter saído.

3. Não há duas sem três. O terceiro exemplo de má liderança da semana é o nosso Trump dos trópicos, o Mussolini do Açaí, o Fuhrer de Havaianas: o Seu Jair. Cada vez mais colérico, Bolsonaro está convencido de que basta agradar aos seus eleitores para seguir no poder. O problema é que finalmente alguém fez as contas. Sabendo que 30% dos eleitores brasileiros não arredam pé do bolsonarismo, o economista Eduardo Moreira lançou uma campanha que viralizou instantaneamente: #somos70porcento. Simples assim. 70% dos eleitores não querem mais ser espezinhados pelos 30% restantes. São de esquerda, de centro e até mesmo de direita. São ricos, pobres, remediados. Recusam-se a participar do lento e evitável genocídio causado pela incompetência em lidar com o coronavírus. Até as violentas claques organizadas de equipas rivais de futebol estão a perigosamente se unir para demonstrar que as ruas não são um território ocupado por fascistas vestidos de verde e amarelo. A coisa tem cara e vai dar para o torto. O único lado, vá lá, positivo da coisa toda é a constatação de que 70% dos brasileiros estão de acordo que discordam em quase tudo, mas compactuam com ideais básicos como: a Terra é redonda, a pandemia não é uma invenção dos media e cada um que faça o que entender com os seus próprios orifícios. Não chega a ser um programa de governo, mas é o que há para hoje.

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