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Edson Athayde - Publicitário e Storyteller 18 de Maio de 2021 às 19:06

Um estranho caso de culpa

Juízes que se imaginam perfeitos são perigosos para a justiça. Via de regra, cometerão absurdos, pois um ser humano que se crê blindado ao erro pode ser tudo menos um ser humano.

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Não há nada mais temerário no mundo do que pessoas imbuídas em ser demasiadamente virtuosas. Já Aristóteles explicava que é no meio (e não nos extremos) que mora a virtude.

Juízes que se imaginam perfeitos são perigosos para a justiça. Via de regra, cometerão absurdos, pois um ser humano que se crê blindado ao erro pode ser tudo menos um ser humano.

Lembremo-nos: nem tudo o que é justo é certo. Nem tudo o que é legal é ético. Nem tudo o que é da justiça dos homens é da justiça de Deus.

Ou dos deuses como Astéria, que vivia na Terra quando esta era sempre primavera e não existiam as guerras, os crimes, as catástrofes e a fome.

Astéria gostava dos mortais. Divertia-se a dar-nos conselhos bons, nomeadamente os relacionados às leis e à justiça. Andava sempre com uma balança para mostrar o equilíbrio das coisas e uma espada para lembrar que se necessário poderia ser implacável.

Porém, os homens quiseram ser donos do próprio destino, rebelando-se contra os deuses. Deu tudo errado. Zeus acabou com a primavera perpétua e obrigou-os a trabalhar a terra para comer. Desgostosa, Astéria acabou por ir se refugiar na constelação de Virgem. A sua balança é a constelação de Libra e está lá no céu até hoje para nos lembrar que tudo deveria ser sempre ponderado e equilibrado. Não é.

A narrativa é clara na metáfora: o oposto da justiça é a ganância. O justo é uma medida que marca aquilo que é menos que o todo. Os homens tinham muito, mas queriam mais. Perderam quase tudo. E se penitenciam até hoje.

O clássico filme “12 Homens em Fúria” (“12 Angry Men”) poderia ter sido dedicado à memória de Astéria. Nele, o drama é baseado na hipótese de inocência de um réu. Quando começa a ação já estamos dentro da sala do júri de um julgamento feito para condenar um rapaz. Nós, o público, nada sabemos do caso. Em poucos minutos, parece claro o consenso: culpado.

É essa a opinião de 11 dos 12 homens presentes. Mas o veredicto tem de ser unânime. Falta o convencimento de um. E ele não arreda pé de fazer valer o seu direito. Não tem convicção alguma sobre a inocência do réu. Mas também não tem o seu contrário.

Há um impasse. E na próxima hora e meia vemo-nos imersos num balé de retórica. Argumentos são esgrimidos, pistas são verificadas, entramos em becos lógicos sem saída.

“12 Homens em Fúria” tem duas versões célebres. A primeira de 1957, realizada por Sidney Lumet e estrelado por Henry Fonda. A segunda também é muito boa, de 1997, realizada por Willian Friedkin e com Jack Lemmon a brilhar no papel do júri indeciso.

“12 Angry Men” é filme de cinemateca, não se encontra por aí. Mais fácil de ser assistida é a série “Um Estranho Caso de Culpa”, estreia recente da Netflix.

Espanhola, a produção traz-nos a história de um rapaz que comete um homicídio já nas cenas iniciais. Vemos o crime, mas as suas circunstâncias estão longe de definir o jovem como culpado. A partir daí a vida de Mateo torna-se uma via crucis de punições, desencontros e culpa, muita culpa.

A tese apresentada é curiosa e cativante. Ninguém é inocente até prova em contrário. E nem mesmo depois disto. Todas as personagens carregam um passado reprovável, um presente suspeito e um futuro incerto. Como acontece nas nossas vidas.

Numa época em que a justiça é tema de conversa de café (ou de diálogo no Facebook), “Uma Estranha Forma de Culpa” lembra-nos que as aparências enganam, pecadores somos todos e santos só no céu de Astéria.

Ou como diria o meu Tio Olavo, a citar Millôr Fernandes: “Errar é humano. Botar a culpa nos outros também”.

 

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