[592.] Alguns slogans em inglês e um em português
Já não se volta atrás: os slogans das marcas internacionais são publicados em inglês. Alguns publicitários, desobedecendo à lei, já nem publicam a tradução portuguesa num canto dos anúncios.
O inglês serve para unir consumidores de todo o mundo. Se um anúncio de uma marca global não tivesse algum texto em inglês - mesmo sendo francesa ou sul-coreana - estranhava-se.
Mesmo as frases mais anódinas são destacadas em inglês nos anúncios, como "A escolha de George Clooney" no de relógios Omega, "A elegância é uma atitude" no reclame dos relógios Longines ou "Celebre os seus momentos inesquecíveis de Natal" no de jóias Pandora.
A marca de roupa e relógios Timberland criou um problema aos tradutores. O inglês "Best then. Better now" foi traduzido num cantinho do anúncio por "Já era bom. Agora está melhor", quando, no original, o relógio já "era o melhor" e "agora mais ainda".
Outra tradução difícil é a da frase abstracta, em letras gigantes", "One day you will", do whisky Glenfiddich. Os publicitários traduziram por "Um dia conseguirá", tratando-nos por "tios", sendo que no original se pretendeu o sentido bíblico que obriga ao tratamento por tu: "Um dia conseguirás". Mas pode ser que este whisky de malte seja mais para "tios" do que para a malta. O reclame mostra uma paisagem marítima escocesa com um veleiro. O slogan tem uma carga filosófica cada vez mais frequente na publicidade. A linguagem comercial apropriou-se, ou até substituiu o peso dos pensadores no discurso público, fazendo ela o proselitismo filosófico de pacotilha: resume o sentido da vida numa frase destinada a accionar valores morais que desencadeiem a compra de produtos. A frase de assinatura da marca da bebida associa esta intenção de espiritualidade com a palavra-chave espírito: "The spirit of a pioneer". Para quê perguntar aos filósofos desta publicidade "Um dia conseguirás" o quê? É o que o leitor quiser. Pode ser: navegar no mar escocês, conquistar o mundo ou, se isso não puder ser assim à primeira, comprar uma garrafa de Glenfiddich.
Já no domínio da filosofia da ciência, mas em português, a publicidade de um relógio IWC remete para a teoria evolucionista de Darwin: "Sobrevivência do mais forte", diz o anúncio em letras enormes. O anúncio refere-se ao modelo relojoeiro "Galapagos Islands" (não poderia ser Ilhas Galápagos, claro). O texto faz uma mistura assaz bizarra entre o darwinismo, nunca referido, as Galápagos e o produto: "A adaptação às condições adversas" no arquipélago "é uma prova de natural superioridade, exemplificada por este cronógrafo em particular". Refere "outro paralelismo", ao comparar a "superioridade no terreno" da iguana ao relógio. O que não se entende é a superioridade absoluta do relógio sobre as Galápagos, pois, ousa-se dizer que o arquipélago deve "em parte" a "sua existência às receitas" da venda deste relógio! Pobres Galápagos!, que só existem "em parte" devido a um relógio. Nem Darwin se lembraria desta evolução.
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