Eduardo Cintra Torres
Eduardo Cintra Torres 04 de setembro de 2018 às 19:33

[769.] Mais publicidade juvenil: BMW, Lidl, Frize

Títulos duns cartazes de BMW nas ruas: "Criaram o stop para o admirarmos." Em baixo, a foto do carro. No mesmo esquema, outro diz: "A razão de existir a faixa da esquerda."

Para uma marca de gama alta ou média-alta, são piadas secas, ao estilo da rapaziada que se junta nos bares do Bairro Alto e do Cais do Sodré e tem pouca noção da sociedade, das pessoas concretas e colectivas que a formam. Será a campanha dirigida a adolescentes e adultos jovens, daqueles que recebem menos de mil euros ou, até, pagam para entrar em estágios nas empresas? Não me cheira. Todavia, os publicitários não encontraram mais nada para chamar a atenção do que frases piadéticas e pouco trabalhadas.

 

Ah!, mas a trabalheira que publicitários tiveram para dizer que os supermercados de Lidl têm produtos frescos? Então, dirão eles, é assim: a gente inventa uma ficção; uma a que a malta adira, OK? Bora usar as ondas gigantes da Nazaré! Vê-se uma onda e o já icónico farol, só para situar, estás a ver? Agora vê-se uma embarcação com dois tipos avançando pelo mar revolto. Avançamos para um grande plano, com os dois, para se perceber que quem conduz a mota de água é o Garrett McNamara, o herói da Nazaré: o que vai atrás dele faz de cómico, com um barrete na cabeça, e diz "eu acho que não consigo!". O Garrett vira-se para trás, zangado, e diz-lhe: "Tu és uma alface do Lidl." O cómico absorve a filosofia da frase. Repete-a. "Eu sou uma alface do Lidl". Absorve-a totalmente e, convencido, treplica-a: "Eu sou uma alface do Lidl!" Lá vai ele!, na crista da onda e gritando "Eu sou uma alface do Lidl!"

 

Muita giro! O elo barroco da ficção ao real aparece em título grande sobre a onda e é dita também pela voz-off: "Vive como se não houvesse amanhã." Acabada a ficção, passamos ao Lidl, OK? Nova frase escrita e lida: "Para as nossas alfaces não há." Não há o quê? Ah, amanhã. A gente confia que os espectadores acompanhem a retórica barroca juvenil. "Os nossos frescos são repostos todos os dias", diz a voz-off enquanto o cómico pega numa alface como se, efectivamente, não houvesse amanhã. E prontos! Os publicitários mostraram enorme bagagem cultural: conhecem uma das frases mais famosas da história, "carpe diem", aproveita o dia, "motto" nas sociedades romana e contemporânea e, claro, da publicidade.

 

E, depois, há o anúncio de Frize, o primeiro de vários. É uma série. Mas que confusão! Os publicitários, superinteligentes, explicam a coisa — porque hoje os publicitários explicam os anúncios às publicações de marketing, porque são uns génios e sem explicação não se percebe. Vamos a ver: dizem que este é um "mockdocumentary". A mim pareceu-me um "mock-mockdocumentary". A ficção finge que o anúncio, que é entre ficção e realidade, é um falso documentário, OK? Então, vamos lá: um homem, indicado como director de marketing, põe em fila garrafas de Frize no seu gabinete e diz "queremos comunicar todos os sabores" da marca. Lá quererem querem, mas será que conseguem? A seguir, a comunicar os sabores da marca, aparece uma actriz com vestido de princesa no meio da floresta com uma mesa ao lado onde estão, novamente, alinhadas as garrafas. Mas, oh!, eu a gostar tanto e ela é interrompida por um plano movimentado com gritaria sem se perceber nada, depois ela volta, depois outro do marketing da marca, depois ela a dizer "mas as filmagens correram mal", com outro plano de gritaria no meio da floresta sem se perceber nada, e finalmente, o director de marketing, ainda no seu escritório, mas ainda de pé, a dizer que não com a cabeça. Mensagem final, escrita e em voz-off muito baixinho: "Frize, o segredo mais bem guardado da natureza." Ó pá, topas?, é tão da natureza que acontecem coisas bué estranhas na floresta! E o segredo está tão bem guardado que nem dá para perceber no anúncio! Supergenial! Viva o barroco mau!

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