Fernando  Sobral
Fernando Sobral 13 de agosto de 2018 às 21:50

O dilema da Turquia e a China

As empresas turcas pediram emprestado fortemente no exterior e agora vão ter de pagar, com um problema: a desvalorização da lira levou a um triplicar do custo do serviço da dívida.  

O primeiro sinal evidente da crise da moeda turca, a lira, aconteceu na sexta-feira, quando a conferência de imprensa do ministro da Finanças da Turquia, Berat Albayrak, foi adiada. Na véspera, o Presidente Recep Tayyip Erdogan dissera que "eles podem ter os dólares, mas nós temos o nosso povo e Deus". A lira começou entretanto a deslizar rapidamente para paridades nunca vistas face ao dólar e ao euro. Foi o culminar, por agora, do diferendo entre os EUA e a Turquia, que teve como epicentro principal a prisão do pastor Andrew Brunson, acusado por Ancara de fazer parte da "conspiração Gullen", o religioso que vive nos EUA. O dia 15 pode ser o de todas as decisões. Mas a situação financeira actual tem antecedentes, que já eram visíveis há algum tempo, com a economia a deslizar substancialmente. Por outro lado as empresas turcas pediram emprestado fortemente no exterior (cerca de 300 mil milhões de dólares em moeda estrangeira), e agora vão ter de pagar, com um problema: a desvalorização da lira levou a um triplicar do custo do serviço da dívida. Alguns dos empréstimos feitos por bancos turcos foram-no em dólares e euros a curto prazo. Mas se havia um risco de colapso bancário, isso dificilmente acontecerá porque, por exemplo, o espanhol BBVA domina o maior banco turco, o Garanti. Só que os bancos europeus vão sofrer com isso.

 

O certo é que este conflito entre os EUA e um país que tem sido fulcral na estratégia da NATO vai causar mudanças geostratégicas na região. Para já parece evidente que o maior vencedor do conflito é a China. É para lá que Ancara olha. Porque parece evidente que para estancar a sua dívida, a Turquia vai ter de vender muitos activos estatais. A China tem dinheiro e a estratégia de Erdogan tem passado muito por uma aproximação à Rússia e à China. Pequim está interessada no negócio. A estatal Cosco Pacific já detém 65% do terceiro maior porto turco. Outros portos podem estar no radar, no Mediterrâneo, no Egeu e no mar Negro. Criar uma rede com linhas ferroviárias poderá ser importante para a estratégia da Nova Rota da Seda chinesa. Por outro lado, a Huawei já está a trabalhar na Internet 5G com a Turk Telecom. A Alibaba investiu este ano na plataforma de internet e e-commerce turca Trendyol. As ligações da economia turca à chinesa são assim fáceis de fazer. E o mercado turco é bastante grande e apetecível.

 

Isto para já não falar do poder militar turco e o seu papel numa zona crucial para os interesses chineses, entre o Médio Oriente e a Ásia Central. O comércio é o outro lado deste dilema: os produtos chineses, se esta opção turca se tornar realidade, chegarão rapidamente por via ferroviária a Anatólia para seguirem para a Europa e o Médio Oriente. Será mais um passo para a Turquia se afastar do Ocidente. É um grande desafio: a Turquia pertence à NATO desde 1952, fez o pedido de adesão à UE em 1999, tem uma economia de mercado atractiva, mas o modelo cada vez mais presidencial de Erdogan e do AKP e a dúvida sobre os "valores democráticos" observados no país têm depreciado a sua imagem em Bruxelas e Washington. Agora é a guerra comercial, a estratégia única de Trump para o mundo, que ameaça colocar um novo dilema à Turquia.  

 

Iémen: a guerra que muitos querem esquecer    

 

É uma guerra que muitos, no Ocidente, querem esquecer. Mas a acção militar da Arábia Saudita e dos Emirados Árabes Unidos (com o apoio visível dos Estados Unidos e do Reino Unido) está a causar um desastre social e humanitário sem precedentes no Iémen. O recente ataque a um autocarro que transportava sobretudo crianças com menos de 10 anos e que causou 47 mortos foi uma atrocidade que muitos não podem já ignorar. Imagine-se que isto tinha acontecido na Síria por iniciativa das forças de Bashar al-Assad. Mas mesmo os media ocidentais não olham com muita atenção para a catástrofe que ali se está a passar. Todos os dias morrem ali pessoas numa guerra sem quartel, onde se esgrimem os interesses estratégicos sauditas e iranianos. E onde os sauditas utilizam armamento ocidental para tentar impor a sua lei. Fora os mortos por acção militar calcula-se que já morreram no Iémen cerca de 150 mil pessoas devido à fome e às doenças. É uma consequência desta guerra, do bloqueio dos seus portos, da destruição da infra-estrutura agrícola e do ataque indiscriminado a civis.

 

Desde que o movimento Ansar Allah (houthis, apoiados pelo Irão) ocupou a capital, Sanaa, em Setembro de 2014, e que levou à fuga do Presidente Abd Rabbo Mansour Hadi, que se iniciou uma agressão militar externa contra o país. Não é a primeira vez que isto acontece. Central como zona de passagem do comércio entre a África e a Ásia, o Iémen é visto como um país estratégico na região. Daí que tenha sido sempre alvo de cobiça externa. Há um século, já no final da I Guerra Mundial, as tropas britânicas cercaram o porto de Hodeidah e os seus aliados, as forças de Ibn Saud (o fundador, mais tarde, da Arábia Saudita, sob a bênção britânica e americana), entraram na cidade, numa orgia de violência pouco vista. A ideia era derrotar um movimento independentista na região.  

 

Índia: festa em Lisboa

 

A Índia promove em Lisboa, a 15 de Agosto, um festival de cultura indiana, com gastronomia, música, dança, ioga, joalharia, roupa e artesanato. O evento celebra o 71.º aniversário da independência da Índia, a 15 de Agosto de 1947, e vai decorrer no Jardim Vasco da Gama em Belém entre as 11h00 e as 20h00.

 

Guiné-Bissau: Vietname compra caju

 

O grupo T&T, do Vietname, vai comprar a totalidade da produção anual de castanha de caju da Guiné-Bissau, entre 150 mil e 200 mil toneladas, ao abrigo de um memorando de entendimento assinado em Hanoi. O acordo foi assinado pelo ministro do Comércio, Turismo e Artesanato da Guiné-Bissau, Vicente Fernandes, e pelo presidente do conselho de administração e director executivo do grupo T&T, Do Quang Hien. A rádio estatal Voice of Vietnam informou que durante as negociações que conduziram à assinatura do memorando de entendimento foi também discutida a possibilidade da importação de arroz vietnamita pela Guiné-Bissau. A castanha de caju é o principal produto de exportação da Guiné-Bissau e o motor do crescimento económico, mas o produto ainda não é transformado no país, sendo exportado em bruto.

 

Timor-Leste: o problema aéreo

 

As poucas ligações aéreas que servem Timor-Leste constituem o principal entrave ao crescimento do sector turístico no país, pode ler-se num artigo publicado no China-Lusophone Brief (CLBrief), um serviço de informação sobre a China e os países de língua portuguesa. Timor-Leste é actualmente servido por apenas três ligações aéreas que ligam a capital Díli a Bali, uma ilha da Indonésia, a Darwin, no Norte da Austrália e à cidade-estado de Singapura. O artigo salienta ser o próprio plano governamental para o turismo a reconhecer que devido à sua localização remota e ao facto de a economia do país operar em dólares dos Estados Unidos, "Timor-Leste é relativamente caro e não é atractivo face ao custo de muitos dos países e territórios vizinhos." O governo pretende triplicar o número oficial de visitantes de 66 mil em 2016 para 200 mil em 2030, duplicando no mesmo período a receita deixada pelos turistas, o que significaria que os turistas teriam de aumentar em 400% os gastos que fazem actualmente.

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