Francisco Mendes da Silva
Francisco Mendes da Silva 15 de janeiro de 2019 às 20:40

A "crise da direita" não existe. Mas é perigosa

Instalou-se por aí uma conversa sobre "a crise da direita". Para já, é só uma etiqueta jornalística, mas se a direita mordesse o isco essa crise viria inevitavelmente.

Se os partidos da direita achassem que aquilo a que hoje se devem dedicar em primeiro lugar é a divagações sobre a sua razão de ser, em posição fetal e com medo do mundo lá fora, então a crise seria certa. 

 

A "crise da direita" não existe, verdadeiramente, mas é uma profecia perigosa, porque se passar a ser anunciada com insistência, pela própria direita, acabará por se realizar a si mesma. Se a direita deixar que se leve a sério esta conversa estará a dizer que parou para pensar e que, assim sendo, o melhor por enquanto é o eleitorado não contar com ela.

 

Convém lembrar que o que existe, quanto muito, é uma crise no PSD. A qual, aliás, nem sequer é identitária. O que enfraqueceu o PSD nos últimos anos foram os erros estratégicos do pós-2015, não foi qualquer fragilidade existencial.

 

Passos devia ter tirado rapidamente o PSD do quadro mental da Troika, em vez de ficar sentado à espera do "Diabo". Não por os desequilíbrios que conduziram ao resgate terem ficado definitivamente resolvidos, mas porque o eleitorado estava cansado do período de emergência e queria começar a ouvir falar também do seu futuro e aspirações. Foi um erro crasso oferecer de bandeja esse papel redentor ao PS - logo ao PS, que fora responsável pela bancarrota e iria continuar a aplicar o essencial da "austeridade".

 

Depois, com Rui Rio, o PSD achou que a alternativa a ser uma oposição ineficaz era ser uma oposição inexistente, aparentemente à espera de poder ir para o Governo com António Costa.

 

Boa parte do partido pensa que este é o caminho para o abismo eleitoral. É por isso que a crise de estratégia se transformou numa crise de poder. O que levou Luís Montenegro a antecipar o desafio a Rio nada tem a ver com divergências programáticas, críticas ideológicas ou crises existenciais. O que aconteceu foi Montenegro ter percebido que, se deixar Rio formar as listas de candidatos a deputado e ir a eleições, poderá depois herdar um partido que não só estará mais fragilizado como lhe será muito mais hostil. Trata-se de um avanço táctico para o poder, nada mais.

 

Isto não significa que não haja uma discussão a fazer à direita. Tenho acompanhado com atenção as intervenções de Miguel Morgado, o mais interessante e talentoso crítico de Rui Rio, sobre a necessidade de "refundação" da direita. Percebo também a tese de que a formação da geringonça exige, como resposta, a formação de um bloco à direita. Se bem que eu estou convencido de que se os entendimentos à esquerda não tivessem existido, por o PSD e o CDS terem continuado juntos no Governo por mais quatro anos, aí sim é que seria hoje praticamente inevitável que se colocasse a possibilidade de uma qualquer fórmula de entendimento permanente entre os dois partidos, com o consequente ponto de situação ideológico.

 

A questão é saber se os partidos da direita se devem dedicar essencialmente a essa busca do autoconhecimento, e se é a falta dela que os impede de ter um projecto mobilizador. Tenho muitas dúvidas. A vocação de um partido é conquistar e exercer o poder, depurando e representando as ideias que a sociedade "do seu lado" vai produzindo. Os partidos podem e devem participar nessa produção de ideias, obviamente, mas não têm de colocar a sua proposta política em suspenso enquanto não descobrem o que fazer num longo processo de introspecção.

 

É impossível neste momento à direita, junta ou separada, apresentar um programa de combate à esquerda no poder? Há alguma dúvida existencial que lhe prenda os movimentos? Não há alternativa a deixar Costa em roda livre? Não me parece. O CDS tem feito um trabalho de pensamento programático ao mesmo tempo que faz oposição clara e diária ao Governo. Não é um esforço hercúleo: é o vulgar quotidiano de um partido político. A única circunstância que impede o PSD de fazer o mesmo é a circunstância do próprio PSD.

 

Advogado

 

Artigo em conformidade com o antigo Acordo Ortográfico

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