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Ainda acreditamos que o dinheiro vem do Multibanco

Não temos vergonha nenhuma de insultar os que têm a lata de não querer contribuir para a nossa felicidade, ofendemo-nos sempre que alguém legitimamente não tem vontade de sobrecarregar o povo que representa com mais impostos e mais encargos.

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A euforia em redor dos fundos europeus pôs-me os cabelos em pé. Parecia que tínhamos recebido uma herança de um tio da América que nem sequer se chora porque nunca se conheceu. Ou o jackpot do euromilhões. Mas acima de tudo o que vi foi um país infantil, com uma idade mental a rondar os cinco, seis anos, naquela fase em que ainda imaginam que o Multibanco oferece aos pais tantas notas quanto as vezes que tenham a paciência de lá ir. Só que Portugal orgulha-se de já ter quase 900 anos, e tinha idade para ter juízo. E vergonha. 

 

As crianças educadas a pensar que os outros é que são responsáveis por tudo o que lhes acontece - locus externo, na linguagem da psicologia - crescem a julgar que não têm controlo sobre nada, lavando as mãos do seu destino, por um lado, mas vivendo numa constante aflição, por outro. São aqueles que quando batem contra uma mesa, os paizinhos vêm dar um açoite à mesa, que foi "má" e se interpôs no caminho do seu querido filho.

 

Já os de locus interno, aprenderam que as consequências resultam dos seus atos. Chocaram contra a mesa porque não prestaram atenção, têm "azares" não porque os astros se uniram para os tramar, mas porque não planearam ou escolheram as opções certas, mas está na sua mão mudar de rumo. Mesmo perante o imprevisto, sabem que a solução depende deles.

 

Portugal, por razões que já deram tratados, sofre de locus externo. É tudo culpa dos outros. E tudo nos é devido. Não temos vergonha nenhuma de insultar os que têm a lata de não querer contribuir para a nossa felicidade, ofendemo-nos sempre que alguém legitimamente não tem vontade de sobrecarregar o povo que representa com mais impostos e mais encargos. 

 

Porque uma das coisas que maior confusão me faz é não ter lido ainda uma linha ou ouvido um comentário sobre os esforço e os sacrifícios que esta decisão de nos entregar uma "pipa de massa" representa para os europeus (o tal clube de que fazemos parte quando é para distribuir lucros e organizar festins e que tratamos como estranhos e inimigos quando não dá jeito cumprir o regulamento da agremiação).

 

Não é preciso ser um economista encartado para perceber que esses fundos só podem vir de dois lados: ou são novos empréstimos ou são contribuições dos estados.

 

No primeiro caso, e para a coisa ter sucesso, tem de haver uma garantia forte para os subscritores e um juro atraente, o que seguramente acontecerá. O efeito previsível é que uma parte das poupanças dos europeus (e não só) sejam deslocadas para a compra desta dívida, quer diretamente quer através de instituições (bancos, fundos de pensões e de investimentos, etc). O efeito inevitável é que vão escassear recursos para colocar mais capital nas empresas diminuindo o investimento e a criação de emprego.

 

É uma opção perfeitamente legítima entre ter mais benefícios agora sabendo que seremos um bocadinho mais pobres no futuro. Temos é de estar conscientes disso.

 

A outra fonte é a contribuição dos estados, leia-se o aumento dos impostos que recaem sobre os cidadãos, o que significa, na prática, que eles vão ter de trabalhar mais (ou trabalhar mais anos) para manter o seu nível de vida.

 

Postas as coisas nestes termos acham mesmo que alguém pode levar a mal a um austríaco ou a um dinamarquês irritar-se por não perceber para onde vai parar o resultado do seu esforço quando, em simultâneo, nos veem reduzir horas de trabalho, repor feriados e nacionalizar empresas falidas?

 

Como se não bastasse, ainda nos sentimos com moral para criticar os sistemas fiscais dos outros, como o holandês, por serem mais atrativos para as empresas ou acionistas. Sim, exatamente o mesmo a quem agora vamos sacar o cheque para desbaratar em coisas tão imperiosas como "reconversão tecnológica e ambiental" ou "modernização administrativa", que nisto de nomes para projetos inúteis e opacos que depois ninguém é capaz de avaliar o efeito, ninguém nos bate.

 

Vendo bem, dizer que gastamos a massa em copos e mulheres só pode ser uma forma carinhosa de nos tratarem e um claro sentimento de inveja por sermos capazes de os fazer de lorpas.

 

Para não desmerecer, vou já abrir uma garrafa para brindar à saúde e longa vida dos meus queridos concidadãos europeus. Se lhes acontece alguma coisa, estamos tramados.

 

Jornalista

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