Isabel Stilwell
Isabel Stilwell 10 de dezembro de 2019 às 20:07

Os falsos Mary Poppins da gestão

Este texto sobre maus administradores exige o conhecimento prévio do filme “Mary Poppins”, aliás, de visualização obrigatória para quem quer singrar no mundo dos negócios.

Há muitos, muitos anos tive um administrador que me causava hipertensão, taquicardia e desespero. Desde aí, descobri que já a quase toda a gente calhou em sorte pelo menos um exemplar desta espécie.

 

São os executivos que chegam a uma empresa com o espírito dos grandes conquistadores, aqueles que arrasavam as cidades até às fundações, queimavam os livros, transformavam as igrejas em mesquitas ou as mesquitas em igrejas, e aterrorizavam a população, confundindo medo com respeito.

 

De tão vaidosos, não suportam deixar seja o que for do passado, decididos a criar um antes e um depois da sua existência, partindo sempre do princípio de que a fórmula  mágica que têm na manga não foi aplicada até aí apenas porque toda a gente que ali trabalha é mais burra do que eles.  

 

Invariavelmente, encantaram os sócios ou donos da empresa com um discurso empolgado, em que prometeram pôr ordem no estaminé, impor disciplina e rigor, aumentando a produtividade que os seus antecessores não foram capazes de conseguir e em breve entregarem resultados assombrosos.

 

Quanto mais tremida está a empresa ou mais acesos os conflitos internos entre os acionistas, mais colhe o seu discurso. Tal como no filme, estas "famílias Banks" também põem um anúncio no jornal - ou contratam uns "head hunters" -, pedindo uma preceptora firme e capaz de pôr a casa em ordem. Quando surge uma criatura convicta e autoritária, que recita umas palavras de um manual de gestão, ao estilo do supercalifragilisticoespialidoso, acreditam estar perante a Mary Poppins. Contratam no minuto, dispondo-se a pagar o que for preciso para que, finalmente, alguém empurre com uma colher de açúcar os medicamentos de que a empresa precisa. 

 

Só que a verdadeira Mary Poppins sabe ouvir, e estas falsificações não sabem. E a Mary Poppins, quando se olha ao espelho, não contempla o seu reflexo narcísico, mas uma outra Mary Poppins, com ideias diferentes das suas, que se atreve a confrontá-la. E o plano da Mary Poppins genuína é o de confiar que cada um dos membros daquela organização pode tornar-se mais autónomo, a ponto de um dia deixar de precisar dela. Enquanto estas imitações, que nem sequer são baratas, armadilham toda a estrutura de forma que todos acreditem (sobretudo o próprio) que ninguém pode sobreviver sem elas.

 

Uma das vantagens de cá andar há muito tempo é já ter visto como acabam estas histórias. Vez após vez, por fim, alguém entende que o guarda-chuva deste farsante afinal não voa e que quando saltam para dentro dos quadros não passam do chão, pagando-lhes uma choruda indemnização para se irem embora, enquanto quem os recomendou assobia para o ar. Supostamente, os que viram o filme desde o primeiro minuto deveriam ficar contentes, com a certeza de que Deus não dorme, mas não ficam. Porque esta gente deixa atrás de si um rasto de destruição de boas ideias, de muito trabalho em equipa, de um projeto arruinado. Por isso, please, please, se é um homem de negócios e planeia contratar alguém, não se deixe enganar. A Mary Poppins, lembra-se?, nem sequer trazia uma carta de recomendações, por isso, em lugar de se deslumbrar com um CV sem fim, confie na intuição. E, já agora, pergunte-lhe se viu "Mary Poppins". A resposta dirá muito sobre quem tem à frente. 

 

Jornalista

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