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Porque nos vendemos por menos

Todos nós, ou pelo menos muitos de nós, atrevia-me a dizer que sobretudo as mulheres, mas se calhar é apenas porque sou mulher, devíamos oferecer o cérebro à ciência — de preferência depois de mortos — para que se conseguisse descobrir porque é que tantas vezes nos vendemos por menos.

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Suspeito de que o bisturi do anatomista devia procurar primeiro nas áreas do cérebro ligadas à educação mais precoce, à infância, em que nos disseram vezes sem conta que a humildade era uma virtude e a vaidade um pecado, nos puxaram as orelhas porque monopolizámos uma conversa, recordando as nossas falhas e o caminho que ainda faltava percorrer para chegarmos à perfeição, à santidade, ou o que fosse, com a nota de rodapé recordando que aqueles que finalmente a atingiam não falavam dela, sob risco de recuarem à Casa da Partida.

Provavelmente até ganhámos algumas coisas com toda esta lavagem cerebral, mas foram mais as que perdemos, metendo na cabeça que devíamos ser eternamente “modestos”, diminuindo-nos constantemente para fugir ao pecado do orgulho.

Aliás, o teste do algodão para avaliar a gravidade da síndrome faz-se bem até fora da morgue, e mesmo de um laboratório: basta ver como a pessoa reage aos mais sinceros elogios. Se protesta, aflita, sem deixar sequer que o elogiador chegue a meio da frase, se garante que não é nada daquilo e se apressa a minimizar o que fez, então é mais do que certo que ainda não percebeu que pode aceitar o cumprimento e agradecê-lo do fundo do coração, mas sem mais explicações.

O bisturi deve depois prosseguir para os lugares do cérebro, ou da alma — mais difícil de encontrar — que lidam com a rejeição. Com a dificuldade em aceitar que nem toda a gente pode gostar de nós, e que não vem disso mal ao mundo. Mais do que tudo os seres humanos querem pertencer à matilha, sentirem-se acolhidos, estando para isso predispostos a fazer o papel do “Vá lá, gosta de mim, só vou estar aqui caladinho”, o equivalente ao cãozinho que se põe de patas para o ar para mostrar aos outros que não é uma ameaça.

Estupidamente, quanto mais querem pertencer, mais os humanos se desvalorizam. Os psicólogos garantem que a maioria das nossas decisões, profissionais ou amorosas, em lugar de serem baseadas naquilo que mais queremos e desejamos, são determinadas por aquilo que mais receamos. E, asseguram, o nosso maior medo é mesmo esse, o de ficar de fora. Afirmar “Ah, que exagero, fiz este projeto com uma perna às costas”, quando levou anos a queimar as pestanas para o completar, ou “Está péssimo”, e começar a desfilar as imperfeições que contém, é o pão nosso de cada dia de tantos de nós. Seja no escritório ou em casa, à mesa de um jantar que com arte e esforço se confecionou para os amigos.

Há ainda os que acreditam que esta postura de vestir o camuflado ou de mergulhar sob um manto de invisibilidade é a única forma de evitar a inveja dos outros, dos líderes, que rapidamente se virariam contra quem lhes pudesse fazer sombra. Pode ser parcialmente verdade, e o poder da inveja é verdadeiramente assustador, mas não é inevitável: todos conhecemos pessoas admiráveis que conseguem defender o seu trabalho e aquilo que são, usando de uma “agressividade com boas maneiras”, termo que o Eduardo Sá cunhou, e sem desvalorizar ninguém, muito pelo contrário. Porque a alternativa a “vendermo-nos por menos” não é abdicarmos de mostrar a nossa vulnerabilidade, nem tão-pouco de passarmos a ser malcriados, arrogantes e gabarolas, mas apenas de aceitarmos serenamente que merecemos o preço certo. Só isso.

 

Estupidamente, quanto mais querem pertencer, mais os humanos se desvalorizam.

 

Pode ser parcialmente verdade, e o poder da inveja é verdadeiramente assustador, mas não é inevitável.
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