João Carlos Barradas
João Carlos Barradas 11 de abril de 2017 às 20:27

Síria: a guerra na agenda

Putin só aceitará a saída de cena de Bashar al-Assad mediante concessões que Trump é incapaz de garantir, sendo de excluir qualquer possibilidade de cessar-fogo na Síria.

Ao bombardeamento de sexta-feira à base de Shayrat, com pré-aviso a Moscovo e, consequentemente, sem oposição dos mísseis anti-aéreos russos S-300 e S-400, seguiram-se declarações contraditórias da parte da administração norte-americana.

 

Presentemente, e com apoio do G7, o afastamento de al-Assad é apresentado como um imperativo, pelo secretário de Estado, Rex Tillerson, mas o regime controla as cinco maiores cidades - Alepo, Damasco, Homs, Hama e Lataquia.

 

Os redutos de combatentes sunitas (maioritamente jihadistas) nas províncias de Idlib (Noroeste), Deera (Sul) e no Leste, além dos bastiões curdos a norte, não constituem uma ameaça premente para os alauítas e seus aliados cristãos e druzos que contam com a apoio russo, do Irão e do Hizballah libanês.

 

A intervenção militar russa a partir de Setembro de 2015 e a mobilização de milícias para colmatar baixas do exército regular sustiveram al-Assad numa conjuntura crítica e a liderança alauíta ousa agora lançar-se à reconquista de posições perdidas.

 

A utilização de sarin em Khan Sheikhoun (Idlib) a 4 de Abril retoma o padrão do ataque a civis em Ghouta (arredores de Damasco) de 21 de Agosto de 2013 e prova a determinação de Damasco, pelo menos da facção preponderante entre as chefias alauítas, em recorrer a todos os meios.

 

O radicalismo alauíta, contraponto dos jihadistas que usaram gás de mostarda em Marea (norte de Alepo) em Agosto de 2015, põe em causa, contudo, a própria diplomacia russa que em 2013 mediou o acordo para eliminar os arsenais químicos do regime e obviar à relutante ameaça de ataque por parte de Obama.

 

Os interesses divergentes de patronos estrangeiros de facções armadas sírias, como o Qatar, Arábia Saudita ou Turquia, a autonomia dos jihadistas em combate na Síria e Iraque, em particular do Estado Islâmico, inviabilizam a negociação de um acordo global de cessar-fogo que permita o início de negociações políticas.

 

Da parte russa, além da salvaguarda da base naval de Tartus, qualquer acordo na Síria (que implica necessariamente maior quinhão de poder para a maioria sunita, o fim da hegemonia alauíta, garantias para minorias cristãs, druzas, turcomenas e autonomia curda) joga-se a par do levantamento das sanções impostas pela anexação da Crimeia.

 

A Síria para Putin é trunfo maior para levar Trump a aceitar uma acomodação favorável aos interesses russos na Ucrânia e nas frentes de confronto europeu com a NATO.

 

A eleição presidencial russa de Março de 2018 obriga, aliás, a polir o estatuto de grande potência alentado pelo Kremlin e limita a margem de manobra pública da Casa Branca que terá de pesar o custo de concessões indesejáveis ao aproximar-se o escrutínio de Novembro para o Congresso.

 

A irredutibilidade dos combatentes após seis anos de guerra civil, a convergência com os conflitos no Iraque e as vagas jihadistas sunitas, o separatismo curdo face à Turquia, a virulência dos xiitas do Hizballah que temem o isolamento estratégico, tão-pouco ajudam a uma solução negociada de que Moscovo ou Washington possam tirar satisfação.

 

Nem russos, nem norte-americanos, envolvidos no acordo nuclear de 2015 com Teerão podem, também, ignorar o potencial destabilizador do Irão que apoia houthis xiitas na guerra civil do Iémen em confronto com a Arábia Saudita e tanto abomina os talibã sunitas quanto a presença militar estrangeira no Afeganistão.          

 

Muitas voltas e reviravoltas ainda dará Trump na sua incoerência e inconsistência.

 

É escassa a possibilidade de que a Casa Branca surja com algum contributo sério para a pacificação da Síria.

 

Jornalista

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