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Jorge Fonseca de Almeida - Economista 07 de Abril de 2021 às 15:35

Maçonaria e economia

Portugal é um país de baixa confiança mútua. Aprendemos a desconfiar uns dos outros. Por isso é tão difícil sair da economia da pequena empresa familiar. A grande empresa pressupõe a cooperação de muitos.

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A Maçonaria nasceu em Inglaterra no século XVIII como instituição que reúne homens de diferentes credos e ideias para cooperarem na reflexão sobre os problemas humanos e para se ajudarem mutuamente na senda do aperfeiçoamento individual. Como instituição tolerante e democrática que é tem atraído muitas das mais generosas e talentosas personalidades.

 

Cedo a Maçonaria passou para a França e daí se espalhou pela Europa. Da Inglaterra também migrou para o Novo Continente onde se afirmou de forma vibrante. Hoje está presente praticamente em todo o mundo.

 

Igualmente cedo a Maçonaria se dividiu em diversos ramos, seguindo ritos diferentes, mas mantendo a fraternidade, a tolerância e a democracia como pontos de contacto e de identidade comuns. Hoje existem diversas obediências organizadas que competem entre si. Portugal não foge à regra e se bem que o Grande Oriente Lusitano seja largamente maioritário existem várias outras obediências.

 

No Reino Unido o Grão-mestre da Maçonaria organizada na Grande Loja Unificada de Inglaterra é, desde 1967, o Príncipe Eduardo, Duke de Kent, primo direito da Rainha. Não o estamos a ver, envolver-se nas ações que Lobo Xavier atribui à Maçonaria. Antes do Príncipe Eduardo o Grão-mestre era o 11º Conde de Scarbrough, o General Roger Lumley, que combateu em França na I Grande Guerra. Também não consta que se dedicasse à extorsão, antes foi deputado conservador, foi ministro e reitor da Universidade de Durham, sendo uma daquelas personalidade que Lobo Xavier num dia normal tenderia a admirar. E quanto a Churchill o líder britânico da segunda guerra não acreditamos que assediasse empresários britânicos para enriquecer ilicitamente. A Grande Loja Unificada de Inglaterra inclui numerosas Lojas em Inglaterra, na Escócia, no País de Gales e em muitos países da Commonwealth. Não consta que se dediquem á extorsão.

 

Nos Estados Unidos a Maçonaria está profundamente enraizada e têm milhões de membros. Será esta uma enorme Máfia subterrânea que mina a democracia americana? Ou terão sido muitos maçons a construir o que Alexis de Tocqueville denominou a Democracia na América? Uma democracia sem dúvida imperfeita mas que Lobo Xavier não argumentaria em contrário se disséssemos mais longa e resiliente do que a portuguesa. Desde logo George Washington, o pai fundador da independência dos estados Unidos maçon bem conhecido. Um ladrão? Um criminoso? Um chantagista?

 

Em Portugal também várias personalidades pertenceram à Maçonaria. Egas Moniz por exemplo, o médico laureado com o Prémio Nobel? Para além de clínico e político seria nas horas vagas um criminoso? Carlos Mardel o arquiteto do Aqueduto das Águas Livres outro Dr. Jekyll and Mr. Hyde, de manhã arquiteto e à noite chantagista?  E tantos outros.

 

Mas porque resiste a Maçonaria em tantos países desenvolvidos? Porque a Maçonaria fomenta um dos bens mais importantes no desenvolvimento económico das nações: a confiança mútua. Sem confiança não pode haver empreendimentos conjuntos, não pode haver cooperação, não pode haver uma economia florescente. Sem confiança as instituições não funcionam e os governos têm de recorrer à força. A relação entre a confiança, desenvolvimento e democracia está hoje amplamente demonstrada nos trabalhos académicos, nomeadamente nos que estudam o chamado capital social.

 

Tendo percebido essa ligação os americanos criaram inúmeras organizações para-maçónicas do tipo fraternal como os Lions, os Rotary e outras. Elas criam laços entre as pessoas, gerando confiança na sociedade.

 

A Maçonaria permite que pessoas de extratos sociais, formações, religiões e sensibilidades políticas distintas se reúnam livremente e, fora de pressões sociais, forjem laços de amizade, de fraternidade e de confiança. Para se manter livre das pressões sociais a Maçonaria é em todo o mundo discreta. Para manter o sentimento de pertença, para melhor organizar as reuniões e como forma de ensino de regras formais de tolerância, de civilidade, de democracia e de humanidade, a Maçonaria segue um ritual. Por isso todas as sociedades em que a confiança predomina têm maçonarias fortes e aquelas em que a desconfiança predomina tendem a perseguir ciclicamente a Maçonaria.

 

Portugal é um país de baixa confiança mútua. Aprendemos a desconfiar uns dos outros. Por isso é tão difícil sair da economia da pequena empresa familiar. A grande empresa pressupõe a cooperação de muitos. Por isso é tão difícil manter um regime democrático estável, estando a nossa história está cheia de longos períodos de ditaduras. Por isso é tão difícil criar instituições sólidas e combater a corrupção. É essa desconfiança destrutiva que agora ressurge e se agrava com os inacreditáveis projetos de leis contra organizações discretas tão diferentes como a Maçonaria e a Opus Dei.

 

Este projeto é mais uma acha para a desconfiança e, nessa medida, para enfraquecer a nossa economia e a nossa democracia.

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