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Jorge Fonseca de Almeida 05 de Janeiro de 2021 às 16:34

Portugal no penúltimo lugar europeu

É tempo de alterar a legislação laboral, fortalecer os sindicatos e deixar cair as empresas improdutivas que só sobrevivem através dos baixos salários que pagam.

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Portugal surge no penúltimo lugar europeu, só ligeiramente acima da Bulgária, nas estatísticas divulgadas pelo Eurostat relativas ao salário médio. Por este andar em breve ocuparemos o último lugar, sendo assim o país em que quem trabalha pior vive e recebe. Maior convite à emigração não há.

 

Ao comparar os ordenados médios em termos nominais Portugal surge algumas posições acima. Mas quando a comparação leva em conta o diferente custo de vida dos diversos países, no que os economistas designam como paridade de poder de compra (PPP), então o nosso país surge no penúltimo lugar no salário médio horário em PPP muito próximo do último lugar ocupado pela Bulgária. Os salários mais elevados são praticados na Dinamarca e na Alemanha e os mais baixos Letónia, Portugal e Bulgária por essa ordem.

 

É obra, nos últimos vinte anos conseguimos tornar a maioria do povo português nos mais mal pagos da Europa. Tiramos o nosso chapéu a políticos e empresários que conseguiram esta proeza.

 

Como explicar este feito? Duas razões principais. A primeira consiste na falácia de que a competitividade se consegue com salários baixos. Nada mais errado. A competitividade, pelo contrário, consegue-se oferecendo no mercado produtos com preços baixos e qualidade média/alta obtida pela utilização intensa de capital/tecnologia nos processos de fabrico. Enquanto persistirmos no modelo dos salários baixos pior ficaremos.

 

A segunda razão tem a ver com a renúncia ao investimento público e às empresas públicas. O setor privado tem a maior dificuldade em criar e gerir empresas grandes, as que podem gerar economias de escala e rentabilizar fortes investimentos de capital intensivo/tecnologia. Nunca o conseguiu fazer em 40 anos de democracia apesar de todas as ajudas europeias e nacionais. Ora ao renunciar às empresas públicas, hoje quase todas estrangeiras, com centros de decisão no exterior, também essas empresas perderam a possibilidade de ser polos de desenvolvimento. Falta, pois, um impulso público na forma da criação de empresas fortes, bem capitalizadas e capazes de dinamizar à sua volta um conjunto de pequenas e médias empresas privadas como acontece na generalidade dos países mais avançados.

 

O modelo dos salários baixos não está de forma nenhuma esgotado. Ao atingirmos as últimas posições europeias podemos continuar a empobrecer, passando a reduzir os salários para níveis de outros continentes. A questão é se queremos continuar nesse caminho.

 

Os recentes aumentos, muito limitados, dos salários encaminham-nos inexoravelmente para o último lugar que talvez atinjamos já em 2021.

 

É triste ver o nosso país na penúltima posição a nível europeu. É tempo de mudarmos de estratégia. É tempo de alterar a legislação laboral, fortalecer os sindicatos e deixar cair as empresas improdutivas que só sobrevivem através dos baixos salários que pagam.

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