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Jorge Fonseca de Almeida 18 de Agosto de 2020 às 14:27

Portugal sem rumo

É o momento de nos olharmos ao espelho, de reconhecer os nossos problemas, de partir do concreto para a reflexão e o debate e deste para a tomada de medidas para ultrapassar os nossos presentes males.

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A aproximação de alguns empresários a partidos de extrema-direita, a organização de milícias militarizadas e violentas que atuam impunemente, a autorização de manifestações racistas, as violências psicológicas públicas sobre crianças negras sem intervenção das instituições, as paradas ao estilo do Ku-Klux-Klan em frente da sede do SOS-Racismo, as constantes ameaças aos dirigentes das comunidades negra e cigana, a dualidade de critérios com que são abordadas pela polícia as pessoas de acordo com a sua etnia, estão a criar em vastos setores da sociedade um clima de tensão e apreensão que contrasta com a apatia e a bonomia dos responsáveis políticos nacionais.

 

Tem-se vindo a instalar no país um clima irreal em que o discurso político não corresponde aos factos, em que nos dizem que somos um milagre na luta contra a pandemia mas sabemos que somos o país com mais mortes excessivas da União Europeia e os países amigos e aliados proíbem aos seus cidadãos visitas a Portugal; em que os governos se autoelogiam pelo desempenho da nossa economia enquanto muitos países do centro e leste nos ultrapassam e nos aproximamos das últimas posições europeias; em que nos juram que a corrupção é residual mas vemos os casos conhecidos há anos, como o de José Sócrates, sem julgamento e aproximando-se da prescrição ilibatória; em que nos asseguram que foram tomadas medidas para que não pereça mais ninguém nos fogos florestais e todos os anos temos várias mortes; em que nos repetem que não há racismo mas todos os dias desfilam sob os nossos olhos casos de agressões, assassinato, violência policial, ameaças e até manifestações do tipo Ku-Klux-Klan.

 

Uma estranha dessintonia entre o discurso político e a realidade que mostra até que ponto as lideranças políticas, fechadas na sua torre de marfim, estão longe dos factos, do quotidiano, do terreno, e se desinteressam dos problemas reais dos cidadãos.

 

Esta situação é, em plena crise económica e social mundial, muito perigosa para o país. É como ser conduzido a alta velocidade por um motorista cego em hora de ponta. Desastre certo.

 

É o momento de nos olharmos ao espelho, de reconhecer os nossos problemas, de partir do concreto para a reflexão e o debate e deste para a tomada de medidas para ultrapassar os nossos presentes males.

 

Prosseguir com um discurso irrealista, negando as evidências, ignorando os problemas, só conduz à convicção de que não há vontade de mudar para melhor, que o futuro se reduz a uma constante deterioração do presente, à desmotivação da maioria, à emigração de muitos, ao atraso do país, ao avanço da extrema-direita e à extinção da III República.

 

Portugal merece melhor.

 

Economista

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