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Luis Nazaré 26 de Junho de 2013 às 23:30

Es lebe Europa!

Perplexos, assistimos agora a zangas públicas entre os guionistas deste filme negro. Os do estúdio FMI saíram a terreiro para denunciar os excessos e a incompetência dos colegas. E estes, os europeus, sentiram-se ofendidos.

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1. Para os mais lúcidos entre os ortodoxos dos modelos macroeconómicos, chegou a hora da autocrítica. O que começou por tímidas manifestações de dúvida quanto aos pressupostos dos planos de ajustamento, assume hoje, face à penúria de resultados, a forma clara de contestação às receitas que vêm sendo aplicadas aos países da periferia. Perplexos, assistimos agora a zangas públicas entre os guionistas deste filme negro. Os do estúdio FMI saíram a terreiro para denunciar os excessos e a incompetência dos colegas. E estes, os europeus, sentiram-se ofendidos. Já não gostam dos nossos filmes? Então tomem lá com a "excepção cultural"!

Em boa verdade, se a corrente solidária da tríade tiver de se romper, o elo dissidente só poderá ser o do FMI. Recordemos que foi a Alemanha quem tomou a iniciativa, em 2010, de convencer o FMI a integrar a tríade, por se recusar terminantemente a criar um Fundo Monetário Europeu para gerir resgates. O FMI acedeu, com alguma relutância e a oposição mais ou menos velada de alguns dos seus países-membros não europeus. Da leitura dos relatórios sobre as suas múltiplas intervenções de emergência, em diferentes momentos e geografias, constata-se a construção de uma curva de experiência onde a ortodoxia de "águas doces" está cada vez menos presente, sobretudo a partir de 2008.

Não surpreendem, pois, as recentes dissensões públicas entre o FMI e os seus parceiros da tríade (a Comissão Europeia e o sorumbático Banco Central Europeu). Aos "erros notáveis" assumidos pelo FMI, há cerca de um mês, na abordagem à crise grega, somam-se agora, a ritmo quase diário, declarações incisivas da parte de alguns dos seus responsáveis quanto à falta de visão das instituições europeias. Sem mastigar as palavras, acusam a Europa de "continuar em estado de negação com a Grécia, que carece de uma nova reestruturação da dívida", afirmam que "Portugal e Irlanda vão precisar de outro tipo de apoios, reforçados no caso português" e avançam com a terrível premonição de que "Chipre está a caminho do desastre". "É impossível lidar com uma miríade de primeiros-ministros, ministros das Finanças, comissários, funcionários do Eurogrupo e falcões do BCE" – rematam certeiramente.

A estas duras acusações, a Comissão Europeia responde com a habitual bipolaridade comunicacional. Em público, na defesa da honra, Olli Rehn aponta o dedo à atitude de Pilatos do FMI, louvando-se no acerto da política europeia; em privado, admite (e vai fazendo-o saber) que de facto os planos de resgate não estão a funcionar devidamente e que algo mais terá de ser feito para salvar os países sob intervenção e o próprio barco europeu.

2. "Repensar a política macroeconómica" é o principal mote dos seminários que Olivier Blanchard tem vindo a realizar mundo fora. Blanchard é o economista-chefe do FMI, com um vasto e prestigiante currículo académico e profissional. Assistiu a crises económicas várias, teorizou sobre elas, desenvolveu prescrições. Hoje, tem muitas dúvidas e poucas certezas, a primeira das quais é que o sistema económico do planeta sofreu em 2008 um abalo de tal intensidade que nenhuma das construções clássicas ficará como dantes.

Blanchard, que recentemente participou num ciclo de conferências promovido pelo Tiger Forum, da Toulouse School of Economics, não se exime de responsabilidades na avaliação do quadro económico mundial anterior a 2008, confessando humildemente que "os economistas tinham esquecido as lições da História" e subestimado a influência dos factores microeconómicos nos macrossistemas. Admite, como outros, o tremendo erro em que laborou ao considerar que o multiplicador contracção-produto era somente de 0,5, contra a banda 0,9-1,7 que hoje o FMI utiliza (não creio haver registo de idêntico acto de arrependimento, por parte do BCE, do tempo em que sustentava um multiplicador negativo). E abre, com elegância, a porta à necessidade de reestruturação das dívidas públicas de algumas das economias mais poderosas. Surpresa?

Não há, do lado das instituições europeias, quem ouse afrontar, com pensamento crítico e livre, o diktat alemão e as conveniências eleitorais de Merkel. O mais pequeno deslize de um membro da Comissão ou do BCE é premiado com uma visita a Berlim para uma reprimenda em privado e sorrisos para os fotógrafos. Es lebe Europa!

Economista; Professor do ISEG

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