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Manuel Falcão 17 de Julho de 2020 às 10:51

A nossa tragédia

Mark Haddon, um escritor inglês, disse recentemente que, se Shakespeare fosse vivo, hoje em dia estaria a escrever séries de televisão.

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"Não me dedico a procurar agradar com as respostas que dou."
William Shakespeare

A nossa tragédia
Mark Haddon, um escritor inglês, disse recentemente que, se Shakespeare fosse vivo, hoje em dia estaria a escrever séries de televisão. Provavelmente tem razão. Desde as pestes que assolam o mundo contemporâneo, à falsidade, conspirações e contorcionismo de quem vive o poder e protagoniza a política, não faltariam temas para Shakespeare se inspirar. Sabe-se lá o que ele diria, por exemplo, do namorico entre António Costa e Viktor Orbán, dando cotoveladas sorridentes um ao outro em jardins de Bucareste. Recordemos as perfídias que se passam em Bruxelas e nos meandros europeus e, num exercício de abstracção, imagine-se que figuras do presente, destes dias de hoje, poderiam agora estar nas personagens principais de Hamlet, Macbeth, King Lear ou até Titus Andronicus. O contorcionismo político é um exercício que se tornou corriqueiro, assim como o desprezo pela verdade, ofuscado por sorrisos plásticos em nome de um optimismo que tem por único objetivo mascarar a realidade - aconteceu isto, com Marcelo de mãos dadas com Costa a garantir que estava tudo bem nos primeiros momentos do incêndio de Pedrógão e agora no desastre que tem sido o desconfinamento em que ambos não resistiram a apadrinhar ajuntamentos como um espectáculo de humor, dias antes de os surtos explodirem em Lisboa, contrariando todas as suas piedosas declarações e garantias. Aquilo a que assistimos há semanas é um desfile de absurdos. Uma tragédia vivida como se fosse uma romaria.

Semanada
Na Madeira, 45% da população activa está em lay-off ou no desemprego na sequência da crise no turismo desencadeada pela pandemia  algumas lojas históricas da Baixa de Lisboa registam quebras de venda de 80% o trabalho suplementar na área da saúde aumentou 17% no primeiro semestre do ano e teve o pico em Maio, significando no total cerca de meio milhão de horas extras de profissionais do sector durante o confinamento mais de 500 pessoas sem-abrigo foram recebidas em centros de acolhimento improvisados em todo o país a Unidade de Atendimento à Pessoa Sem-Abrigo do Cais do Sodré, da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, recebe 200 pessoas por dia cerca de um terço da população vive em casas com más condições de habitabilidade – revela um estudo da Fundação Gulbenkian o mesmo estudo indica que muitas famílias estão a pagar o empréstimo para compra de casa já depois dos 70 anos e em idade de reforma uma freguesia de Ponte de Lima esteve quase uma semana sem abastecimento de água canalizada as cirurgias no IPO de Lisboa caíram 42% em Maio segundo o INE o número de hóspedes e de dormidas registadas em Maio quebraram 94,2% e 95,3% face ao mesmo mês do ano anterior e a queda das receitas foi de 97,2%, passando de mais de 390 milhões para 11 milhões de euros.

Dixit
"Passámos de dizer que somos os melhores do mundo para dizer que o mundo está contra nós"
Paulo Portas

Sobre a vida
Folheio "Nada A Temer" de Julian Barnes, o relato agitado de uma viagem ao seu passado, à sua família, às suas dúvidas perante a morte e a vida, perante as religiões e o pensamento humano. A páginas tantas, Julian Barnes, um dos mais relevantes escritores britânicos contemporâneos, conta que na sua adolescência descobriu um pufe de couro indiano que, ao ceder sob o seu peso, revelou estar recheado das cartas de amor trocadas entre o seu pai e a sua mãe ao longo dos anos de namoro, todas rasgadas em pedaços, recordações sobre as quais ele passou anos a sentar-se sem o saber. A descoberta deu-se quando um dia se sentou com mais força, o couro já envelhecido cedeu nas costuras e lá de dentro saíram retalhos do amor que assim estavam escondidos. Ao longo do livro Barnes relata as memórias da sua família, desde os avós aos pais, passando pelo seu irmão, filósofo. E recorda o que a mãe dizia: "Um dos meus filhos escreve livros que posso ler mas não compreendo - referindo-se ao filósofo - e o outro escreve livros que eu compreendo mas não posso ler." "Nada a Temer" é uma memória de família, um quase diálogo com o irmão filósofo, uma meditação sobre a mortalidade e o medo da morte, uma celebração da arte e uma discussão sobre Deus. Barnes descreve como o pai, já reformado, um ex-director de escola, viveu os seus últimos anos refugiado no silêncio defensivo perante uma mulher autoritária. A relação do escritor com o pai não é muito calorosa - mal se tocavam, mal falavam e poucas vezes estavam a sós os dois - e o pai não era muito apreciador da obra literária do filho. Do livro, como escreveu The Guardian, sai sobretudo esta interrogação: "Se o medo da morte é a coisa mais racional do mundo, como podemos lidar com isso?" Julian Barnes escreveu um livro sobre a mortalidade que tanto aborda a fé como a ciência, a família ou figuras marcantes da sua vida e da história que ao longo dos séculos se defrontaram com o facto mais básico da vida - o seu inevitável fim.

O regresso a Belém
O Museu Berardo apresenta a partir desta semana duas novas exposições, baseadas na sua colecção permanente. As duas exposições coexistem nos 2.900 metros quadrados do piso 2 do museu. O ponto central é a exposição "Do Primeiro Modernismo às Novas Vanguardas do Século XX", de autores como Pablo Picasso, Modigliani, Amadeo Souza-Cardoso, Marcel Duchamp, Man Ray, Piet Mondrian, Josef Albers, Salvador Dalí, René Magritte, Louise Bourgeois, Francis Bacon, Jackson Pollock, Maria Helena Vieira da Silva, Lucio Fontana, David Hockney, Andy Warhol, Roy Lichtenstein, Donald Judd, Bruce Nauman, Richard Serra, Gerhard Richter, Julião Sarmento, John Baldessari entre muitos outros. A segunda exposição, que funciona em ligação com a primeira e permite uma leitura complementar da colecção, é o projeto "Constelações III: uma coreografia de gestos mínimos" (na imagem) que integra obras de artistas como Francisco Tropa, Hans Richter, Mário Cesariny, Max Ernst, José Barrias, João Penalva, Arpad Szenes, Nadir Afonso, Dziga Vertov, Ângela Ferreira, Marcel Duchamp, László Moholy-Nagy, Oskar Schlemmer, João Ferro Martins, Man Ray, Raúl Perez, Mário Botas, Louise Bourgeois, Cabrita, João Louro, Rita Gaspar Vieira, Yves Klein, Helena Almeida, José Maçãs de Carvalho entre outros. Ao todo são cerca de 350 obras, algumas delas mostradas publicamente pela primeira vez. Outra sugestão: no Museu de Aveiro, em colaboração com Serralves, obras de Julião Sarmento agrupadas na exposição "No Brilho da Pele", até 27 de Setembro.

Arco da velha
Uma doente com Alzheimer teve alta do Hospital de Cascais sem que a família fosse informada e foi encontrada morta junto a um viaduto da A5, depois de não ter conseguido encontrar o caminho para casa.

O beijo roubado
Crescer em Beja dá nisto - uma mistura de cante alentejano com fado num disco de estreia que é surpreendente. O responsável é Buba Espinho, de seu nome real Bernardo, hoje com 24 anos e que cresceu em ambiente musical, ao que se ouve com muito bons resultados. A seu lado estão, em alguns dos 11 temas que integram o álbum de estreia, António Zambujo, Raquel Tavares, Tiago Nacarato e Diogo Brito e Faro. O disco tem originais do próprio Buba Espinho, composições de alguns dos convidados e tradicionais como "Zé Negro". "Roubei-te Um Beijo", um tema composto por Buba Espinho, cantado em dueto com António Zambujo, é uma daquelas músicas que agarra na primeira audição, uma canção "orelhuda" que tem palavras simples e certeiras: "Roubei-te um beijo/ Foi por paixão/ Vê lá não digas/ A ninguém que eu sou ladrão." E, depois há a voz de Buba Espinho - fresca, com uma amplitude notável, afinadíssima, em que o sotaque inconfundível do Alentejo funciona como quase uma melodia à parte. Num ano tão triste para a música, este é um testemunho de vida, o manifesto de um novo talento que entra em tempos difíceis com a determinação de quem vai deixar marca.

A pimenta da terra
Uma pessoa vai pedir um aconselhamento de vinhos a bom preço, entra na estimável garrafeira Néctar das Avenidas (Rua Pinheiro Chagas, 50), e pede ao proprietário, senhor Quintela, ajuda para levar um bom vinho para um jantar em casa de um amigo. O conselho é sempre bom em termos de qualidade do vinho e sensato em termos de preço. Nas prateleiras, arrumadas por regiões, destaca-se a área dedicada ao vinho do Porto. Mas ali há bons vinhos de todas as regiões, com boas opções de pequenos e médios produtores, muitos deles pouco conhecidos. O proprietário sabe muito de vinhos, conhece os produtores e vai sabendo aquilo de que os clientes gostam - vai-me sugerindo vinhos do Dão, que ando a experimentar, e dá-me sempre a conhecer bons brancos daquela região nesta época estival (como o Adega de Penalva). A garrafeira Néctar das Avenidas, que vai realizando uns jantares vinícolas em alguns restaurantes, em colaboração com produtores seleccionados, tem também petiscos permanentemente à venda - queijos, alguns enchidos, compotas, manteiga Rainha do Pico dos Açores (talvez a melhor manteiga portuguesa), folar Limiano na sua época e os magníficos doces açorianos da Maviripa - e é um dos doces deste produtor da ilha de S. Miguel, que hoje venho aqui elogiar: o Doce Extra de Pimenta Vermelha da Terra. Experimentem-no com um queijo duro, como o queijo de S. Miguel, ou com um bom requeijão da Beira e ficarão fãs. Neste fim de semana experimentei-o nestas duas variantes e ainda sobre carne assada - funciona bem com tudo, acrescenta sabor e surpreende quem o não conhece. Tornou-se um acompanhamento fundamental.
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