Joaquim Aguiar
Joaquim Aguiar 11 de fevereiro de 2020 às 08:10

Oscilações das charneiras

Para conseguirem ter relevância política, estes pequenos partidos precisam que um dos grandes partidos os transportem até esse estatuto superior. Mas depois de lá chegarem já não podem sair, sob pena de serem responsabilizados pela crise política que estariam a provocar.

A FRASE... 

 

"O Governo faz os negócios que for preciso com quem aparecer, e constrói maiorias circunstanciais. Quem cria instabilidade é quem não negoceia de forma estável." 

 

Mariana Mortágua, Expresso, 8 de Fevereiro de 2020

 

A ANÁLISE...

 

É sempre motivo de admiração verificar que o que é evidente pode ser apresentado como uma surpresa. Foi nas eleições de 2015 que se iniciou o tempo das geringonças, mas o que então foi comentado como uma surpresa não foi mais do que a efectivação de uma propriedade de um sistema partidário que tem dois grandes partidos no centro e pequenos partidos nas periferias.

 

Para conseguirem ter relevância política, estes pequenos partidos precisam que um dos grandes partidos os transportem até esse estatuto superior. Mas depois de lá chegarem já não podem sair, sob pena de serem responsabilizados pela crise política que estariam a provocar, sendo relegados para o seu anterior estatuto inferior de partidos exteriores ao arco da responsabilidade - e só os que são responsáveis podem pertencer ao arco da governabilidade. 

 

Foi esta propriedade que justificou Salgado Zenha em 1974 quando (actualizando o que já Afonso Costa proclamava na Primeira República) propôs como linha estratégica que o PS não precisava de fazer alianças com outros partidos e que deveria governar em minoria desde que fosse o partido mais votado. Esta opção era então inevitável porque o PCP era um partido considerado exterior à democracia ocidental e subordinado aos interesses soviéticos. Ficava definida uma assimetria no sistema partidário: poderia haver alianças de partidos na direita, mas não era possível ter alianças na esquerda. O fim da União Soviética, o declínio eleitoral do PCP e os progressos eleitorais do Bloco de Esquerda alteraram este padrão e em 2015 restabeleceu-se a simetria (pelo menos parlamentar) no sistema partidário.

 

Mas não se alterou a realidade dos factos eleitorais, continua a haver dois partidos dominantes no centro. Para que haja estabilidade política e consistência estratégica no exercício do poder será necessário que cada um desses partidos centrais hegemonize o seu respectivo quadrante político, o PS na esquerda, o PSD na direita. Enquanto isso não for feito, as oscilações circunstanciais dos partidos-charneira implicam que a economia continuará estagnada, a sociedade continuará a envelhecer e Portugal continuará sem estabilidade estratégica, com muito passado e nenhum futuro.

 

Artigo em conformidade com o antigo Acordo Ortográfico

 

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências diretas e indiretas das políticas para todos os setores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

maovisivel@gmail.com

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