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Joaquim Aguiar 02 de Junho de 2020 às 09:45

A desordem do mundo

Há desordem no mundo quando se perde a referenciação ao padrão de equilíbrio e os ajustamentos às circunstâncias não têm um enquadramento orientador, mas ainda pode ter uma resposta na esfera da política.

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A FRASE...

 

"De tanto invocar o keynesianismo para defender a irresponsabilidade fiscal, acabamos sem poder usá-lo quando mais é preciso." 

 

Ricardo Reis, Expresso, 30 de Maio de 2020

A ANÁLISE...

 

Uma estrutura de ordem mundial contém uma propriedade essencial: ao estabelecer um padrão de equilíbrio, sinaliza os desvios que ocorrerem e tem dispositivos institucionais cuja função é corrigir esses desvios para evitar que eles evoluam até aos extremos da crise ou da guerra.

Há desordem no mundo quando se perde a referenciação ao padrão de equilíbrio e os ajustamentos às circunstâncias não têm um enquadramento orientador, mas ainda pode ter uma resposta na esfera da política, na esfera da economia e na esfera da sociedade através das instituições, nacionais e multilaterais, que foram concebidas e estabelecidas para permitir organizar as respostas colectivas. A estrutura de ordem anterior desapareceu, mas ainda é possível avançar para uma nova ordem internacional com outra hierarquia de poderes.

A desordem do mundo é outra coisa. É a fragmentação dos espaços que antes eram unidades estratégicas em pequenas unidades nacionais ou locais, polarizadas em confrontos internos sem resolução, não tendo dimensão nem recursos para restabelecerem os equilíbrios fundamentais e sem instituições multilaterais que possam oferecer linhas de orientação para organizar as respostas colectivas.

Houve desordem no mundo com o "Deutschland über alles" combinado com o racismo antissemita, mas foi possível restabelecer uma estrutura de ordem mundial com a separação clara entre vencedores e vencidos - e o contributo de Keynes para que a economia e a sociedade recuperassem os seus equilíbrios fundamentais foi essencial no plano das ideias e no plano da construção das instituições para uma nova ordem internacional.

A actual crise da ordem mundial, que está a ter a sua origem no "America first" combinado com o racismo dos supremacistas brancos, está a ser eficaz para destruir a estrutura de ordem anterior, mas tem na sua génese o risco de só produzir vencidos, de provocar a desordem do mundo onde não haverá lugar para vencedores, onde as violências polarizadas substituem o pluralismo das democracias e onde a racionalidade dos interesses é substituída pela exploração das emoções. A desordem do mundo é muito mais destruidora do que a desordem no mundo.

 

Artigo em conformidade com o antigo Acordo Ortográfico

 

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências diretas e indiretas das políticas para todos os setores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

maovisivel@gmail.com

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