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Joaquim Aguiar 22 de Junho de 2020 às 20:00

As três crises

A Europa da união monetária precisa da união bancária e da união fiscal para poder constituir uma unidade estratégica e resolver a crise dos Estados nacionais europeus.

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A FRASE...

 

"A pandemia de covid-19 mandou-nos uma pancada que ajudou a perceber melhor o que já cá estava antes."

José Pacheco Pereira, Público, 20 de Junho de 2020

 

A ANÁLISE...

 

Um sistema geral pode ser estável apesar de ser constituído por subsistemas que estão em equilíbrio instável, se estes se articulam de modo a apoiarem-se mutuamente para que nenhum entre numa dinâmica de crise que arraste os outros. Desde 2008, sabe-se que a liberdade de circulação de capitais nos processos de globalização das economias pode gerar crises sistémicas se os sistemas bancários não souberem regular esses fluxos. Desde 2010, sabe-se que a área do euro tem um risco de instabilidade porque não tem os reguladores da união bancária e da união fiscal. Desde 2011, sabe-se em Portugal que défices externos e défices orçamentais, implicando o crescimento da dívida, têm como consequência a estagnação económica e a necessidade de políticas de correcção. Desde 2016, sabe-se que os Estados Unidos de Donald Trump abandonam a responsabilidade de potência hegemónica a quem compete estruturar a ordem mundial e escolhem uma estratégia de isolacionismo nacionalista fechado na conflitualidade do racismo, bloqueando as instituições e os compromissos multilaterais.

 

No mundo, na Europa e em Portugal, os equilíbrios existentes eram instáveis - mas o conjunto era estável. O risco que está contido numa estabilidade geral de equilíbrios instáveis é que um acidente imprevisto venha desmantelar esta configuração frágil. O vírus covid-19 foi o imprevisto, que não tem nenhuma intencionalidade estratégica mas é o revelador das ilusões alimentadas na articulação dos equilíbrios instáveis.

 

Se é o fim dessas ilusões, também é a oportunidade para mostrar o óbvio. A escala do Estado nacional na Europa não gera recursos suficientes para corrigir as consequências do congelamento das economias pela crise sanitária. A Europa da união monetária precisa da união bancária e da união fiscal para poder constituir uma unidade estratégica e resolver a crise dos Estados nacionais europeus. A ordem mundial terá de ser reconfigurada para se ajustar à escolha americana de não exercer a responsabilidade de potência hegemónica.

 

São três crises articuladas, a resposta para uma exige as respostas para as outras. Não vai ser simples nem rápido.

 

Artigo em conformidade com o antigo Acordo Ortográfico 

 

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências diretas e indiretas das políticas para todos os setores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

maovisivel@gmail.com

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