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Luís Marques Mendes 02 de Agosto de 2020 às 21:14

Marques Mendes: O Novo Banco cometeu dois pecados capitais

As habituais notas da semana de Marques Mendes, no seu espaço de comentário na SIC. O comentador fala sobre a queda histórica do PIB, a polémica do Novo Banco, a desautorização da ministra da Agricultura e o estado da pandemia, entre outros temas.

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QUEDA HISTÓRICA DO PIB

 

  1. A queda do PIB no segundo trimestre (cerca de 16%) é brutal mas não é surpreendente. Afinal, o país esteve praticamente "parado" durante Abril e Maio. Mesmo assim há países ainda piores do que nós- a Espanha, a França, a Itália ou os EUA. Em qualquer caso é um grande trambolhão.

 

  1. O Ministro da Economia disse que o pior já passou. Gostava que ele tivesse razão mas não creio. Claro que o PIB vai melhorar nos próximos trimestres. O País já está a trabalhar. Mas em termos sociais, o pior está ainda para vir. Não quero ser desmancha prazeres ou estragar as férias de ninguém, mas infelizmente o que vamos ter no futuro são três coisas – falências de empresas, aumento do desemprego e salário em atraso.

 

  1. Mais importante, porém, é o futuro. Como vamos recuperar?
  2. Primeiro: confiando na recuperação dos nossos principais parceiros – a Alemanha, Espanha, França, Reino Unido. Esta recuperação é essencial para voltarmos a exportar em força.
  3. Segundo: incentivando a recuperação do turismo. Sem isso a recuperação económica e social é mais difícil. E para tal não podemos falhar na saúde pública como falhámos durante estes dois últimos meses.
  4. Terceiro: esperando que o Plano de Recuperação com fundos Europeus não demore muito a arrancar. No entretanto, há duas questões que podem ser fatais: por um lado o fim do lay off simplificado – é um erro; por outro lado, a não renovação das moratórias de crédito que terminam em Março de 2021, sobretudo nas áreas do turismo, hotelaria e restauração. Pode ser outro erro.

 

A POLÉMICA DO NOVO BANCO

 

  1. Primeiro problema: a responsabilidade do NB. O Novo Banco devia perceber que, enquanto depender directa ou indirectamente de dinheiros do Estado, não é um banco igual aos outros. Tem exigências acrescidas. E como não percebeu isto, cometeu dois pecados capitais:
  • Primeiro: já devia ter esclarecido tudo e não esclareceu quase nada. Houve ou não vendas ao desbarato? Houve ou não conflitos de interesses? Quem são os beneficiários efectivos das vendas de carteiras? É muita coisa que o NB tem de esclarecer.
  • Segundo: um banco nestas circunstâncias nunca devia ter financiado o comprador da carteira que estava à venda. Nunca. Um banco directa ou indirectamente financiado pelo Estado não empresta dinheiro a uma sociedade sediada num offshore. Até pode ser tudo legal. Mas é tudo suspeito e promiscuo. Aqui o NB agiu mal.

 

  1. Segundo problema: a hipocrisia do Governo e dos políticos em geral. Em 2017 o NB foi vendido, ficando o comprador com a hipótese de usar uma almofada de 3,9 mil milhões para compensar perdas que tivesse na venda de carteiras de crédito. Com este incentivo de que é que estavam à espera? Que o NB não usasse este dinheiro? Deixem-se de hipocrisias. Acresce que, segundo o Expresso, o Governo aprovou todas estas vendas.  Então agora  lavam as mãos como Pilatos? Conclusão: o NB é tóxico e todos os políticos fogem dele como o diabo da cruz.

 

  1. Finalmente, a necessidade de tudo esclarecer. O MºPº foi desafiado a intervir. Nada a opor. Mas pode não ser solução. Afinal, não há indícios criminais. Assim, impõe-se uma averiguação independente, rápida e completa. Que já devia ter sido promovida ou pelo NB, ou pelo Fundo de Resolução, ou pelo Governo. Quem não deve não teme e quem paga deve exigir pôr tudo em pratos limpos!

 

 

A DESAUTORIZAÇÃO DA MINISTRA DA AGRICULTURA

 

  1. Embora tivesse passado despercebido, tivemos esta semana um facto inéditouma "remodelação parcial" da Ministra da Agricultura. Vamos aos factos:
  2. Primeiro: há duas semanas tivemos uma chacina chocante, arrepiante e repugnante de dezenas de animais em Santo Tirso. Algo que nunca devia ter acontecido.
  3. Segundo: na sequência disso, o PM, na prática, "demitiu" na praça pública o D. G. da Veterinária. Algo que nunca devia ter acontecido. Não sei se o DG tem ou não tem culpa no ocorrido. Mas não se trata assim um servidor do Estado. Isto é uma humilhação e uma falta de respeito.
  4. Terceiro: esta semana aconteceu o mais inacreditável – o PM fez uma "remodelação parcial" da Ministra da Agricultura, passando-lhe um atestado de incompetência. Tirou-lhe uma parte do Ministério – as competências em matéria de protecção e bem-estar animal – e passou-a para o Ministério do Ambiente.

 

  1. Se esta mudança tivesse sido feita no início do Governo, era tudo normal. Feita agora, no contexto em que foi, depois da chacina verificada e da demissão do DG, só tem uma leitura – é um atestado de incompetência à Ministra; é uma desautorização da Ministra. É como quem diz: a Ministra falhou. A pasta dos animais passa para outro Ministro, mais capaz e competente.

Perante isto só restava à Ministra dar-se ao respeito e sair pelo seu pé. Como preferiu agarrar-se ao lugar, dificilmente vai ser respeitada no futuro.

 

 

O ESTADO DA PANDEMIA

 

  1. Temos más notícias no mundo e boas notícias em Portugal.
  2. No mundo, temos já 18 milhões de casos. O aumento, semana a semana, é muito acentuado. Só os EUA têm 1/4 do total dos casos do mundo. E EUA, Brasil e Índia são, os três em conjunto, responsáveis por metade do total de casos no mundo.
  3. Em Portugal temos boas notícias:
  • Primeira: já estamos praticamente dentro da média da UE em novos casos por 100 mil habitantes nos últimos 14 dias. A média da UE está em 28 casos nos últimos 14 dias. Portugal está com 29 casos. Foi uma recuperação notável em Portugal.

Com estes dados já não há qualquer razão para que que o RU mantenha as restrições a Portugal. Impõe-se, pois, que o Governo, através do MNE, retome de imediato os contactos com as autoridades britânicas.

  • Segunda: em termos de novos casos por dia, as melhorias também são notórias. Vamos na terceira semana consecutiva a descer. Enquanto na generalidade dos países europeus os novos casos aumentam, em Portugal a tendência é de descida.

 

  1. O Expresso anunciou que a DGS vai reduzir o número de testes. A DGS desmentiu. Ainda bem. Reduzir o número de testes agora não seria nem coerente nem inteligente.
  • Não seria coerente: o PM e a DGS andaram sempre a dizer – testar, testar, testar. Trabalhamos para a saúde e não para as estatísticas. Convinha agora não dar o dito pelo não dito.
  • Não seria inteligente: então vamos reduzir o número de testes justamente agora que melhorámos a situação e já estamos na média europeia? Seria estupidez a mais e inteligência a menos.

 

 

TRUMP QUER ADIAR ELEIÇÕES

 

  1. Pela primeira vez Donald Trump admitiu expressamente a ideia do adiamento das eleições presidenciais nos EUA. Este adiamento não vai suceder – Trump não tem poderes para decidir. De resto, nunca sucedeu um adiamento de Presidenciais na história dos EUA – nem nos tempos da guerra, seja da guerra civil ou da guerra mundial.

 

  1. O que há aqui de significativo é que esta "tirada" representa desespero. Trump está desesperado. A pandemia fez mal a Trump: há 6 meses estava reeleito; hoje corre o risco de perder a eleição.
  2. Trump está atrás de Biden nas sondagens;
  3. Trump está com uma crise brutal às costas; e
  4. Trump é acusado e bem de ter gerido mal a pandemia.
  5. Ou seja: a imagem triunfal de Trump caiu do pedestal!

 

  1. Claro que Biden não é um adversário forte. É verdade. Só que:
  2. Esta eleição, mais do que uma eleição, é um plebiscito. Vota-se a favor ou contra Trump. Quem não quer Trump vota em Biden, goste ou não goste dele.
  3. Apesar disso, Joe Biden é muito diferente de Hillary Clinton. Não tem o talento da ex-candidata mas também não tem os anticorpos que ela tinha. E, numa eleição destas, não ter anticorpos é uma vantagem.

 

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