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Clara Raposo 04 de Junho de 2019 às 20:05

"(Not) another brick in The Wall"

Não sendo perfeito o seu mandato e tendo tomado posições controversas - em particular quando estalou a mais recente crise financeira global e das dívidas soberanas - a Sra. Merkel nunca deixou de transmitir uma imagem de tranquilidade, de conciliação, de liderança e de alguma qualidade humana.

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Angela Merkel foi, para mim, uma surpresa. Ser uma escolha de Helmut Kohl, um entusiasta do projeto de paz europeu, sempre foi um bom indicador do seu potencial como defensora do projeto da União Europeia. Contudo, aquele ar algo austero e o facto de ser uma "protegida" de uma figura tão marcante quanto Kohl, levou-me a pensar que poderia ser uma líder fraca e sem imaginação. O passar dos anos fez--me repensar e tenho hoje uma consideração especial pela chanceler alemã, que considero uma figura marcante do século XXI. Passo a explicar porquê.

 

Não sendo perfeito o seu mandato e tendo tomado posições controversas - em particular quando estalou a mais recente crise financeira global e das dívidas soberanas - a Sra. Merkel nunca deixou de transmitir uma imagem de tranquilidade, de conciliação, de liderança e de alguma qualidade humana. Foi o único líder europeu, com significativa força e peso, que não vacilou na defesa do projeto da UE, desde que ocupou o seu posto em 2005.

 

Na verdade, quando penso na Europa sem ela, fico mais preocupada do que tenho estado até agora. Vejo com apreensão uma Europa com movimentos separatistas (que têm sempre, a meu ver, uma componente muito significativa de complexo de superioridade e de falta de solidariedade), uma Europa que acomoda regimes não convincentemente democráticos, uma Europa com alguns políticos que já não têm vergonha de assumirem posições extremadas, xenófobas ou belicosas. Angela Merkel, com a sua presença, personificou até agora uma certa garantia de estabilidade. Seria, aliás, muito positivo que pudesse ainda dar uma nota adicional de visão ao criar as melhores garantias de uma adequada transição de futuro.

 

Poucos dias antes de Donald Trump iniciar a sua visita de Estado ao Reino Unido - nação à qual se dá ao luxo de fazer recomendações, muito em especial defendendo os seus amigos Boris e Farage, incentivando o Brexit - e de reafirmar a sua posição face ao México, insistindo no projeto de construção de um muro e de mais barreiras ao comércio, inclusivamente com fundamentos de natureza não económica, tivemos o contraste de poder ouvir a Sra. Merkel em Harvard.

 

Falou, com grande abertura e em jeito de balanço de vida política, daquilo que é o futuro do mundo, da necessidade e empenho pessoal em enfrentar os perigos das alterações climáticas, da utilização de tecnologia por bons motivos ou simplesmente pelo facto de esta existir, e da sua experiência de vida desde os tempos do Muro de Berlim. Utilizou a memória dessa realidade para falar aos estudantes de Harvard acerca da diferença entre verdade e mentira e para lhes dizer "tear down walls of ignorance and narrow-mindedness, for nothing has to stay as it is". Caso o Sr. Trump estudasse um pouco de espanhol em vez de planear o muro na fronteira com o México, entenderia um "Por qué no te callas?" das palavras da senhora Merkel.

 

Parece, porém, estar mais preocupado com outros assuntos e empenhado em afirmar a sua visão unilateral do mundo. É pena e, até, algo assustador pensar no potencial de alastramento de tais ideias.

 

Hoje, muito longe de ser presidente de uma grande nação ou chanceler de outra, mas enquanto simples presidente de uma escola de economia e gestão, tenho mais do que nunca presente aquele álbum dos Pink Floyd que apelava a uma certa revolta dos estudantes face a um sistema de ensino em que o pensamento era controlado (e hoje também temos escolas de pensamento único) e em que os professores abusavam da sua posição hierárquica com um grau de sarcasmo ofensivo. Também nesse álbum, o tema era The Wall. Apelo a que não construamos mais muros que limitem o nosso respeito uns pelos outros, pela vida e pela liberdade. Pela minha parte, vou substituindo o velho sarcasmo por algum humor e o pensamento único por um olhar franco nos olhos de quem quer aprender a pensar por si próprio, partilhando aquilo que sei a par do que desconheço. Com honestidade. É por isso que o lema da minha escola é "open minds for a better world", mentes abertas, a funcionar, sem preconceitos, despertas para pensar e tomar decisões, sejam elas nas empresas, sejam em prol de um bem maior.

 

PS - Deixo os parabéns ao professor José Azevedo Pereira e ao ex-aluno do MBA João Carlos Silva pelo prémio internacional de "Outstanding New Case Writer 2019" do reputado The Case Centre, com um "case study" sobre a Brisa e Vasco de Mello. Esta sexta, depois de celebrarmos no ISEG com um memorável "sunset cocktail", vamos a Santos! Há que aproveitar os Santos Populares...

 

Dean do ISEG - Lisbon School of Economics & Management. Universidade de Lisboa

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