Clara Raposo
Clara Raposo 02 de julho de 2019 às 19:29

O valor do capital e do tempo

Mesmo que um politico, ou “capitalista do passado” defenda um "status quo" que comprometa a vida futura no nosso planeta, os investidores estão atentos e valorizam medidas e empresas mais verdes e mais responsáveis. É aqui que reside a minha esperança.

Na semana passada, o mês de junho despediu-se com uma anormal onda de calor no centro da Europa. Tudo estaria OK se este tempo anormal não fosse um sinal daquilo que tememos ser o "novo normal". Não fosse a capacidade humana de conduzir o dia-a-dia em rotinas de inquietações profissionais absorventes, poderia muito bem acontecer estarmos em estado de alerta laranja (ou, no mínimo, amarelo) acerca da continuidade da vida na Terra. E quanto a esta preocupação com o tempo, o tempo que faz e o tempo que resta e que deveríamos prolongar, há alguns sinais encorajadores que nos vêm do mercado de capitais e da política. Vamos lá analisar.

 

Comecemos pelos sinais de mudança que vêm da política. A atual presidência finlandesa do Conselho da Europa publicou no dia 26 de junho o seu programa de atuação, pautado por um objetivo de preservação do futuro. No dia seguinte, a Finlândia apresentou proposta de redução de emissões de gases de efeito de estufa no transporte aéreo na Europa, a ser implementada durante a sua presidência. E, esta segunda-feira, o primeiro-ministro Antti Rinne sugeriu que resolver a crise do clima poderia ser o próximo ato heroico da Europa.

 

As declarações de Rinne são, por um lado, preocupantes porque implicam uma enorme alteração na forma como as empresas bem estabelecidas no mercado global podem ser afetadas – especialmente em setores poluentes e/ou que consomem recursos naturais dificilmente renováveis. Poderão enfrentar oposição daqueles que dependem desses setores e que vivem confortavelmente, tal como – arriscaria eu dizer – todos nós que lemos o jornal de negócios e estamos bem integrados no atual sistema económico. E convém não esquecer que o tema das migrações, que tantos medos e paixões desperta, não é indissociável do das alterações climáticas. Por outro lado, há uma determinação nas palavras de Rinne que traz a esperança de se virem a tomar decisões com uma meta que ultrapassa o curto horizonte temporal do decisor. Disse ele que o tempo das políticas do "sim, mas" no combate às alterações climáticas chegou ao fim, na Finlândia, na Europa e no mundo.

 

Será que sim? Será que a vontade de um político, ou de um partido, ou de um país, ou mesmo de um velho continente, consegue mudar o comportamento do mundo? Parece difícil. Como acreditar nesta mudança com economias abertas e razoavelmente livre circulação de mercadorias, pessoas e capitais? Não é fácil concorrer com a América de Trump, que não sacrifica custos em troca de mais tempo, nem combater um discurso de negação.

 

Surpreendentemente, porém, surgem sinais de mudança vindos do mercado de capitais – e logo dos Estados Unidos. Será que o capital se preocupa com o tempo?

 

Um artigo de 2018, de Ramelli, Wagner, Zeckhauser e Ziegler ("Stock price rewards to climate saints and sinners: Evidence from Trump’s election") analisa a reação da cotação de empresas na bolsa à eleição de Donald Trump em novembro de 2016 e à subsequente nomeação de Scott Pruitt, no mês seguinte, para chefiar a Environmental Protection Agency (EPA). Recorde-se que, à data, a vitória de Trump foi inesperada, uma surpresa para a generalidade das pessoas e dos investidores.

 

Dado o discurso de Trump, defensor de atividades menos ambientalmente sustentáveis, inclusive com a quebra do Acordo de Paris, seria de esperar que o mercado encarasse esta eleição como boas notícias para as empresas mais poluentes e "sujas". Nos dados recolhidos sobre as empresas do índice Russell 3000 – cotações de mercado e caraterísticas das empresas, inclusive quanto à sua intensidade no uso de carbono e quanto à adoção voluntária de iniciativas para reduzir futuras emissões de gás - chegamos a duas conclusões interessantes:

 

1) é verdade que as empresas nos setores mais "sujos" viram as suas ações subirem de valor no curto prazo, com a notícia da eleição de Trump, o que não nos surpreende.

 

2) mas também é verdade que as empresas que mais adotaram políticas responsáveis quanto ao clima, foram premiadas com maior rendibilidade das suas ações.

 

Gosto de interpretar estes resultados da seguinte forma: mesmo que um politico, ou "capitalista do passado" defenda um "status quo" que comprometa a vida futura no nosso planeta, os investidores estão atentos e valorizam medidas e empresas mais verdes e mais responsáveis. É aqui que reside a minha esperança.

 

Não vale a pena esforçar-se tanto, Sr. Trump, nós todos já percebemos que o que interessa mesmo é a vida, o "going concern" desta grande empresa que é o nosso planeta e as pessoas que o habitam e hão de habitar no futuro. "Where is the money"? Os acionistas estão atentos e passaram a valorizar (mesmo que, nalguns casos, com ceticismo) aquilo que mais interessa, é para aí que o dinheiro irá.

 

PS – Boas férias a todos aqueles que já estão em "silly season" e que tanto invejo (inveja boa!!) neste início de julho.

 

Dean do ISEG - Lisbon School of Economics & Management Universidade de Lisboa

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