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Filipe Santos 02 de Setembro de 2020 às 09:20

Geração injustiçada ou geração afortunada?

Esta não é uma geração injustiçada, mas sim uma geração afortunada, por viver onde vive, na época em que vive, e por ter o mundo a seus pés. Tem apenas de procurar descobrir o seu talento e paixão, apostar na sua formação, potenciar as suas capacidades, e aproveitar as oportunidades.

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Na Católica Lisbon School of Business & Economics já iniciámos o ano letivo. Tive o privilégio de dar as boas-vindas esta semana a mais de 400 novos alunos de licenciatura em cinco sessões presenciais distintas e a 460 novos alunos de mestrado em sessão digital (modelos adotados dadas as restrições impostas pela pandemia). Destes últimos, quase 300 alunos são internacionais, a maioria deles vindos de países da Europa Ocidental como a Alemanha, França e Itália. São jovens à procura de construir o seu futuro na aventura que é o ensino superior, em que aprenderão a conhecer o mundo na sua área de especialização, farão amizades para a vida e construirão as bases da sua carreira profissional. Aliás, a nível nacional, houve este verão um aumento de mais de 20% nas candidaturas de 1.ª fase ao ensino superior para um total de 62.675 candidatos, o maior número dos últimos 25 anos. A Católica-Lisbon, por sua vez, teve um aumento de mais de 60% nas suas candidaturas, para o seu valor mais alto de sempre. Este fenómeno de crescimento tem a ver com as escassas oportunidades no mercado de trabalho por causa da pandemia, a dificuldade dos jovens portugueses em irem estudar para o estrangeiro este ano, e a perceção de valor do ensino superior. Mas este aumento de candidaturas tem também a ver com o conhecido efeito de “flight to quality” – em contextos de elevada incerteza, as pessoas procuram investir em valores seguros (como seja um grau académico nas escolas com maior qualidade e reputação).

No entanto, há quem considere que o sistema está a falhar a esta geração de jovens. Que estes alunos quando se graduarem terão menores oportunidades no mercado de trabalho e receberão contratos mais precários e com baixos salários. E que a geração que agora se forma terá menor qualidade de vida e menor perspetiva de carreiras que a geração dos seus pais.

Penso que há países disfuncionais onde se poderá fazer esta avaliação negativa intergeneracional, dado o elevado desemprego jovem e nível de corrupção de alguns regimes mais fechados e autoritários ou, por outro lado, dadas as desigualdades e tensões provocadas por sistemas excessivamente liberais. Mas, na generalidade da Europa Ocidental, incluindo Portugal, considero que esta é a geração mais afortunada de sempre. Uma geração que encontrará oportunidades de desenvolvimento únicas e que verá valorizado o seu talento.

Houve uma altura em que o sistema capitalista era dominado pelas Finanças – capitalismo financeiro – pois o capital era o recurso mais escasso na economia, um recurso cujo controlo garantia poder e acesso a todos os outros recursos. Mas hoje em dia estamos a viver num sistema económico com uma abundância de capital acumulado pelas gerações anteriores (em fundos de pensões, fundos soberanos e endowments de fundações e famílias), e que é já muito superior às oportunidades de investimento existentes no mundo. Daí as taxas de juro (que é a remuneração de quem tem capital) estarem negativas no mundo ocidental há quase uma década, mas o prémio para os empreendedores de sucesso, os desportistas ou artistas talentosos, e todos aqueles com um talento diferenciado ser enorme. Exceto em situações de crise aguda e desequilíbrio momentâneo de mercado (como foi a crise financeira de 2011 e subsequente falência de alguns Estados por falta de capital), cada vez mais quem dita as cartas da economia não é quem tem capital, mas sim quem tem talento. O talento e a visão empreendedora são o novo capital escasso das economias modernas. Isto pode parecer ingénuo e não ser claro para todos, por estarmos ainda presos mentalmente a modelos mais tradicionais, mas acredito que esta é uma tendência que se irá acentuar nos próximos anos.

Esta geração de jovens tem um acesso à informação e conhecimento do mundo como nunca antes existiu, tem uma mobilidade internacional elevada (exceto em tempo de pandemia), tem mercados e plataformas que permitem criar pequenos negócios e aceder ao mercado global com pouco capital inicial, trabalhará em empresas focadas em atrair e reter o melhor talento, e tem formas de se relacionar, mobilizar outros, e transformar o mundo que não existiam antes.

Esta não é uma geração injustiçada, mas sim uma geração afortunada, por viver onde vive, na época em que vive, e por ter o mundo a seus pés. Tem apenas de procurar descobrir o seu talento e paixão, apostar na sua formação, potenciar as suas capacidades, e aproveitar as oportunidades que o capitalismo do talento lhe vai trazer.

E deixo uma nota final. Num ano de pandemia em que o turismo está a ter uma quebra de receitas enorme, há um segmento do setor do turismo que continua a crescer a mais de 20% ao ano - o turismo de educação premium, em particular nos programas de mestrado de qualidade em que existe um mercado europeu com um enorme potencial de crescimento. Não falo dos programas de intercâmbio Erasmus, que de facto tiveram uma quebra com as restrições de mobilidade devido à pandemia, mas sim de alunos estrangeiros que se matriculam a tempo inteiro para fazerem o seu curso em Portugal. Um aluno internacional que venha para Portugal estudar e viver durante os 18 meses de mestrado gera receitas para o nosso país num valor superior a 30 mil euros. Assim, os alunos internacionais que esta semana recebemos na nossa Católica-Lisbon representam 10 milhões de euros para o país de receitas externas. Olhando para toda a Universidade Católica Portuguesa, o valor quase duplica, e se contarmos com as outras universidades portuguesas estamos a falar de um valor que ascende às centenas de milhões de euros. E são “turistas” de longo prazo que aprendem a nossa língua, conhecem o país profundamente, criam relações com os locais e, muitas vezes, apaixonam-se por Portugal (ou por portugueses) e querem cá viver e desenvolver a sua carreira após a graduação, muitos em áreas ligadas à tecnologia, à gestão, ao empreendedorismo e à inovação.

Há assim um raro segmento do turismo a crescer acima dos 20% ao ano em Portugal, mesmo em tempos de pandemia - o turismo de educação premium. Pela atratividade do país e pela qualidade das suas universidades e escolas, este é um segmento com resiliência na procura e um potencial enorme de crescimento que deve ser potenciado.

 

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