Choques geopolíticos e economia: agora o Médio Oriente

A guerra, mesmo quando ocorre a milhares de quilómetros de distância, pode rapidamente transformar-se num choque inflacionista na Europa e, claro, num desafio adicional para a política monetária.

A economia global voltou a recordar uma das suas vulnerabilidades estruturais: a dependência da estabilidade geopolítica no Médio Oriente. O conflito que envolve Israel e EUA contra o Irão trouxe novamente para o centro do debate económico a relação entre guerra, energia e inflação, uma interdependência que a Europa conhece demasiado bem.

Os mercados reagiram de forma imediata. A 26 de fevereiro, o barril de Brent negociava em torno dos 71 dólares. Em menos de duas semanas, a intervenção militar de Israel e dos EUA no Irão e a escalada de tensões na região levou o preço a alcançar, a 9 de março, os 120 dólares por barril. Nos dois dias seguintes baixou para a casa dos 90 dólares, mas no dia 12 de março voltou a ultrapassar a barreira dos 100 dólares. Esta volatilidade ilustra bem a sensibilidade dos mercados energéticos ao risco geopolítico. A região do Golfo continua a ser central para o abastecimento energético mundial e qualquer ameaça à estabilidade das rotas de transporte, em particular no estreito de Ormuz, traduz-se rapidamente em prémios de risco nos preços do petróleo.

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O problema é que os choques energéticos raramente ficam confinados a este mercado. A energia é um fator transversal a praticamente todas as cadeias de produção. Quando o preço do petróleo sobe de forma abrupta, os custos de transporte, de produção industrial e de logística aumentam, pressionando os preços finais ao consumidor. Por outras palavras, o risco de um novo choque inflacionista é bem evidente.

A inflação na zona euro tinha vindo a desacelerar gradualmente, após o pico registado no período pós-pandemia e na sequência da invasão da Ucrânia. Esse processo permitiu que os mercados antecipassem um ciclo de redução das taxas de juro por parte do Banco Central Europeu (BCE). No entanto, um aumento persistente dos preços da energia pode alterar esse cenário. Tudo dependerá da duração deste conflito.

Os bancos centrais enfrentam, nestas situações, um dilema clássico. Por um lado, um choque energético é tipicamente um choque de oferta, cuja origem não reside na procura interna. Por outro, se o aumento dos custos energéticos se repercutir nos salários e nos preços dos serviços, o risco é que a inflação se torne mais persistente. Nesse caso, o BCE poderá ser obrigado a implementar uma política monetária restritiva durante mais tempo. Ou, pelo menos, a adiar um ciclo de descida das taxas de juro.

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Para a economia europeia, as consequências podem ser muito relevantes. Um aumento prolongado dos preços da energia tende a reduzir o rendimento disponível das famílias e a aumentar os custos das empresas. O resultado é normalmente uma combinação de inflação mais elevada com crescimento económico mais fraco. Em termos macroeconómicos, trata-se de um choque negativo para a atividade económica.

Portugal não é exceção. Apesar dos progressos significativos na transição energética e do forte crescimento das energias renováveis, a economia portuguesa continua a ser estruturalmente dependente de importações energéticas. Assim, aumentos significativos no preço do petróleo refletem-se rapidamente nos preços dos combustíveis e nos custos de transporte. Esse efeito é particularmente relevante num país onde o transporte rodoviário de mercadorias tem um papel central na distribuição de bens. O setor logístico depende fortemente do gasóleo e é particularmente sensível às variações no preço do petróleo. Assim, uma subida persistente dos custos energéticos pressiona as margens das empresas e tende a refletir-se em preços mais elevados ao longo da cadeia de abastecimento.

Existe ainda um terceiro canal de transmissão: a política monetária. O aumento esperado de taxas de juro pelo BCE para conter pressões inflacionistas, agora mais certo com o despoletar do conflito militar no Médio Oriente, terá impacto direto no custo do financiamento. Para uma economia como a portuguesa, onde o endividamento das famílias e das empresas continua relativamente elevado, a evolução das taxas de juro é particularmente relevante para o consumo e para o investimento.

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Naturalmente, é importante evitar leituras excessivamente alarmistas. A economia portuguesa está hoje mais bem preparada para lidar com choques energéticos do que estava há poucos anos. A diversificação das fontes de energia, o reforço das reservas estratégicas e o crescimento das energias renováveis na Europa, aumentaram a resiliência do sistema energético. Mais, hoje Portugal tem um rating de crédito do tipo “investment grade” ou de baixo risco de incumprimento (A+ pela agência de rating Standard & Poor’s) e com perspetivas positivas.

Ainda assim, o episódio atual recorda uma realidade essencial: num mundo globalizado, os riscos geopolíticos continuam a ter consequências económicas diretas. E particulares e empresas viram num curto espaço de tempo os preços de bens essenciais como energia e matérias-primas essenciais a subirem o preço significativamente. A guerra, mesmo quando ocorre a milhares de quilómetros de distância, pode rapidamente transformar-se num choque inflacionista na Europa e, claro, num desafio adicional para a política monetária.

E, como tantas vezes acontece na economia, os efeitos mais relevantes não são apenas os imediatos, mas sobretudo aqueles que se prolongam no tempo através das expectativas dos mercados financeiros e das decisões dos bancos centrais.

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