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João Pinto - Dean da Católica Porto Business School
11:15

O sucesso incompleto

Nunca foi tão evidente a necessidade de liderança integrada, de governação responsável e de capacidade de inovação. A economia portuguesa pode apresentar indicadores macroeconómicos relativamente robustos, mas o seu futuro dependerá, em larga medida, da qualidade da gestão, da estratégia empresarial e da capacidade de adaptação das organizações.

Os resultados mais recentes do “OECD Economic Surveys: Portugal 2026” confirmam aquilo que os indicadores macroeconómicos têm mostrado desde 2022: a economia portuguesa revelou uma resiliência notável face a choques sucessivos. O crescimento económico manteve-se robusto e acima da média europeia, o emprego atingiu níveis historicamente elevados e a dívida pública registou uma redução significativa. Em 2024, o PIB cresceu 2,1% (previsão de 1,9% a 2% para 2025), o desemprego situou-se em mínimos históricos e as contas externas apresentaram excedentes.

Mas o mesmo relatório é claro num ponto essencial: o bom desempenho recente não elimina os riscos, nem resolve os desafios estruturais que condicionam o crescimento de longo prazo. A escassez de mão de obra, o envelhecimento demográfico, a pressão sobre a produtividade, a crise da habitação e os impactos crescentes das alterações climáticas exigem reformas e investimento sustentado.

Este contraste entre sucesso conjuntural e fragilidade estrutural é talvez o traço mais marcante da economia portuguesa atual. A OCDE sublinha que a sustentabilidade do crescimento dependerá de prudência orçamental, reformas estruturais e investimento orientado para a produtividade. Alerta, igualmente, para os riscos associados à fragmentação do comércio internacional, às tensões geopolíticas e à incerteza das políticas económicas globais, fatores que podem afetar uma economia aberta e fortemente integrada nas cadeias de valor europeias.

Ou seja, o desafio não é apenas económico. É estratégico.

É neste contexto que se torna particularmente relevante a reflexão que esteve no centro da conferência de lançamento do Centre for Impact in Global Management (CIGMA), realizada a 27 de janeiro na Católica Porto Business School. Vivemos num mundo marcado por tensões geopolíticas, fragmentação económica, aceleração tecnológica e desafios ambientais e sociais sem precedentes. As empresas, sobretudo as PME e as empresas familiares, enfrentam uma pressão inédita para decidir bem, rapidamente e com visão de longo prazo.

Nunca foi tão evidente a necessidade de liderança integrada, de governação responsável e de capacidade de inovação. A economia portuguesa pode apresentar indicadores macroeconómicos relativamente robustos, mas o seu futuro dependerá, em larga medida, da qualidade da gestão, da estratégia empresarial e da capacidade de adaptação das organizações.

A OCDE aponta, de forma explícita, que a produtividade continua abaixo da média dos países desenvolvidos e que uma parte significativa do emprego se concentra em microempresas com reduzida capacidade de investimento, inovação e gestão profissional. Este é um dos paradoxos centrais da economia portuguesa: uma performance macroeconómica positiva coexistindo com fragilidades microeconómicas persistentes.

Adicionalmente, os riscos externos intensificaram-se. A fragmentação do comércio, o aumento das barreiras tarifárias e a instabilidade geopolítica podem afetar as exportações e o investimento. Internamente, o envelhecimento da população, a pressão sobre o sistema de pensões, a crise da habitação e a transição climática colocam desafios que não podem ser adiados.

Perante este quadro, torna-se evidente que o debate sobre competitividade já não pode ser reduzido a custos, salários ou incentivos fiscais. A questão central é mais profunda: estamos a formar líderes capazes de compreender e gerir a complexidade?

O CIGMA nasce precisamente desta convicção. A ideia de que a gestão contemporânea exige uma visão holística, capaz de integrar estratégia, finanças, governação, liderança, sustentabilidade e tecnologia. Num mundo em que os riscos são interdependentes e os choques se propagam rapidamente, a fragmentação do conhecimento torna-se uma vulnerabilidade. 

A experiência recente da economia portuguesa ilustra bem esta realidade. A resiliência demonstrada desde 2022 resulta não apenas de políticas públicas eficazes, mas também da capacidade das empresas de se adaptarem a contextos adversos. Contudo, a próxima fase do desenvolvimento económico será mais exigente: menos baseada na recuperação pós-crise e mais dependente de inovação, produtividade e visão estratégica.

O relatório da OCDE é, neste sentido, simultaneamente encorajador e exigente. Mostra que Portugal tem bases sólidas, mas alerta para a necessidade de acelerar reformas, reforçar competências, melhorar a eficiência do investimento público e privado e preparar a economia para um ambiente internacional mais instável.

A mensagem é clara: o futuro não será determinado apenas por ciclos económicos favoráveis, mas pela capacidade de antecipar riscos e de construir estratégias de longo prazo. Num mundo incerto, as organizações precisam de mais do que respostas rápidas. Precisam de visão, de valores e de capacidade de integrar complexidade. A economia portuguesa demonstrou que sabe resistir aos choques. O desafio agora é provar que sabe transformar esta resiliência em crescimento sustentável, inovação e liderança.

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