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João Pinto - Dean da Católica Porto Business School
20 de Janeiro de 2026 às 12:15

Autonomia estratégica europeia: custo, oportunidade ou imperativo económico?

Durante décadas, a eficiência foi o principal critério de decisão. Produzir onde era mais barato, comprar onde era mais eficiente e confiar que as cadeias globais garantiriam abastecimento contínuo. Essa lógica permitiu ganhos significativos de bem-estar, mas revelou fragilidades quando confrontada com choques externos.

A incerteza passou de exceção a regra. A guerra na Ucrânia, as tensões geopolíticas entre os Estados Unidos e a China, a instabilidade no Médio Oriente e a crescente fragmentação do comércio internacional estão a redefinir o enquadramento económico global. Para a Europa, uma das economias mais abertas do mundo, este contexto representa um desafio estrutural: num ambiente em que comércio, tecnologia (também bélica) e finanças são cada vez mais utilizados como instrumentos de poder, a exposição a riscos sistémicos tornou-se inevitável. 

Esta leitura é reforçada pelo Global Risks Report 2026 do World Economic Forum (WEF), que caracteriza o período atual como uma verdadeira “idade da competição”, marcada pela intensificação da confrontação geoeconómica e pela erosão das regras multilaterais que sustentaram a globalização nas últimas décadas. O relatório mostra que, no horizonte de curto prazo (dois anos), a confrontação geoeconómica passou a ser o risco percecionado como mais severo ao nível global, subindo de forma significativa face ao relatório de 2025, onde o risco dominante era o conflito armado entre Estados. 

É neste contexto que o conceito de autonomia estratégica europeia ganhou centralidade no debate político e económico. Importa, contudo, clarificar desde logo que autonomia estratégica não significa autarcia nem estar fechado para o mundo. Significa reduzir dependências críticas, em áreas como energia, defesa, tecnologias-chave e matérias-primas, preservando simultaneamente os benefícios da abertura económica e do mercado interno.

A comparação entre os Global Risks Reports de 2025 e 2026 é particularmente elucidativa. Em ambos, os riscos ambientais dominam claramente o horizonte de longo prazo (10 anos), com fenómenos como eventos climáticos extremos, perda de biodiversidade e alterações críticas dos sistemas terrestres a ocuparem consistentemente os primeiros lugares do ranking de severidade. No entanto, o relatório de 2026 evidencia uma mudança relevante: os riscos geopolíticos e geoeconómicos ganharam peso no curto prazo, refletindo um mundo mais fragmentado e menos previsível.

Esta evolução tem implicações económicas diretas. Durante décadas, a eficiência foi o principal critério de decisão. Produzir onde era mais barato, comprar onde era mais eficiente e confiar que as cadeias globais garantiriam abastecimento contínuo. Essa lógica permitiu ganhos significativos de bem-estar, mas revelou fragilidades quando confrontada com choques externos. A pandemia e a guerra tornaram visível que cadeias de valor excessivamente concentradas podem transformar-se rapidamente em vulnerabilidades económicas.

O dilema europeu é, por isso, claro. Reforçar a autonomia estratégica implica investimento público avultado, políticas industriais mais ativas e maior coordenação entre Estados-membros, frequentemente aceitando custos (ou investimentos) de curto prazo em troca de maior resiliência futura. Tudo isto ocorre num contexto de restrições orçamentais e de regras fiscais mais exigentes, o que torna ainda mais crítica a qualidade das escolhas estratégicas. 

Existe também um risco evidente de erro de desenho. O Global Risks Report 2026 alerta para os perigos de respostas fragmentadas e pouco coordenadas num ambiente de competição geoeconómica crescente. A multiplicação de subsídios nacionais, a criação de “campeões” protegidos ou a duplicação de investimentos estratégicos pode enfraquecer o mercado interno europeu e agravar assimetrias entre países.

Por outro lado, ignorar o problema pode sair ainda mais caro. A evolução dos rankings de risco mostra que a exposição a choques externos — de disrupções em cadeias críticas à concentração de recursos estratégicos — é hoje percecionada como mais severa do que há apenas um ano. A ausência de estratégia não é neutra, representa antes uma escolha implícita que aumenta a vulnerabilidade económica.

A autonomia estratégica pode, se bem concebida, tornar-se uma oportunidade. Investimentos coordenados em inovação, defesa, tecnologia e infraestruturas críticas podem reforçar a base industrial europeia, estimular ganhos de produtividade e criar emprego qualificado. Para isso, é essencial que as decisões sejam tomadas ao nível europeu, evitando respostas nacionais isoladas. 

Para países de menor dimensão económica, como Portugal, este debate é particularmente relevante. Economias abertas beneficiam do mercado interno, mas são mais vulneráveis a choques externos. Uma estratégia europeia bem coordenada é, por isso, crucial para mitigar riscos que dificilmente podem ser geridos ao nível nacional. 

Em suma, a autonomia estratégica europeia não deve ser vista como um afastamento da lógica de mercado, mas como um reforço da sua sustentabilidade. Num mundo em que, como mostram os relatórios do WEF, a eficiência já não é suficiente, a capacidade de antecipar riscos e investir estrategicamente tornou-se um fator decisivo para assegurar prosperidade duradoura. 

 

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