Nuno Antunes
Nuno Antunes 09 de maio de 2019 às 10:10

A (nova) geopolítica da energia

A recomposição da geopolítica setorial [da energia] já é uma realidade. Determinam-na [aspetos como] as alterações climáticas, a transição energética, os direitos humanos [ou] novas valorações ético-sociais.

Para todos quantos 'crescemos' num mundo movido a petróleo, a 'geopolítica do petróleo' é um repositório de informação crítica sobre o setor energético. Umbilicalmente ligada à decisão política nacional e internacional, espraia-se pela geografia e pelas relações internacionais. Incorpora a reconstrução pós-II Guerra Mundial com 'petróleo barato', a cartelização da indústria, as guerras do médio-oriente e do Iraque, os choques petrolíferos, a queda da ex-União Soviética, o controlo dos mares, a segurança energética, os mercados financeiros, ou a revolução do petróleo de xisto.

No entanto, inexoravelmente, a 'geopolítica do petróleo' cairá aos pés da revolução subjacente à necessidade de resposta às alterações climáticas. Sendo o problema demasiado sério para se resolver por decreto ou com manifestações bacocas, a solução só pode ser gerada como opção social e de consciência. À escala global. E porque faz sentido no plano económico.

Só assim se atingirão objetivos críticos, como a neutralidade carbónica em 2050. E, neste quadro, as contribuições advirão de fontes multifacetadas: 'energia limpa', inovação científica, eficiência energética, gestão de resíduos, transportes, agricultura, florestas, ação governativa, alterações do consumo.

Mas desenganem-se os arquitetos da desordem. À 'geopolítica do petróleo' não sucederá o caos. A recomposição da geopolítica setorial já é uma realidade. Determinam-na as alterações climáticas, a redução de emissões de GEE, a transição energética, os direitos humanos, a sustentabilidade, e novas valorações ético-sociais. Senão vejamos:

Um conjunto significativo de Estados (com a UE em destaque) tem concretizado políticas que se afastam do 'petróleo' e promovem uma 'economia limpa'. Assegurados os pilares de sustentabilidade, em particular a alocação justa dos custos da transição energética, o processo afigura-se irreversível.

Os polos estratégicos da energia estão a 'descentralizar-se'. A China assume-se como principal produtor de baterias de iões de lítio, ultrapassando os EUA e UE. A geografia dos metais necessários à implementação de renováveis (e.g. lítio, cobalto, níquel, cobre, manganês, metais de terras raras) diverge da geografia do petróleo.

As companhias petrolíferas internacionais, incluindo as 'supermajors', são atores nesta revolução. A Shell pretende converter-se na maior companhia de eletricidade do mundo até 2030. A Total quer atingir 20% de quota de renováveis em duas décadas. A BP advoga o 'carbon pricing' para criação de incentivos à transição energética. A Statoil, hoje Equinor, chegou ao ponto de mudar de marca.

O fundo soberano da Noruega, com ativos que ascendem a cerca de um bilião (1012) de euros, decidiu desinvestir em mais de 100 companhias petrolíferas, ao mesmo tempo que irá manter investimentos em companhias petrolíferas com departamentos de renováveis.

A 'geopolítica do petróleo' desaparecerá. Mas não sem deixar rasto. Tudo quanto é realmente crítico - da tecnologia e digitalização às finanças, da bioeconomia à segurança, da eficiência energética à mobilidade limpa, dos direitos humanos à sustentabilidade - jogar-se-á numa nova arena: a (nova) 'geopolítica da energia'. "The King is dead. Long live the King".

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