A Europa centrípeta e centrífuga
Está a assistir-se a uma centralização sem precedentes da Europa, entre Bruxelas e Berlim, que faz lembrar quando Napoleão, com as suas tropas e leis (a começar pelas penais e administrativas) tentou criar um império de pensamento único na Europa. Mas é isso que faz renascer o nacionalismo.
Portugal vive no seio da União Europeia e tem como moeda o euro mas raramente dedica um pouco dos seus neurónios a pensar neste continente a que ficámos ligados por mistérios geográficos e históricos. Por isso as palavras de Mario Monti, o primeiro-ministro italiano, que sabe que no seu país se aproxima uma tempestade anti-europeia de dimensões eventualmente trágicas, veio há dias alertar para o risco de um "confronto entre Norte e Sul" da Europa. O meio não poderia ser mais óbvio e acutilante: a revista alemã "Der Spiegel". As suas palavras, que sensatamente denotam o aumento das tensões nacionalistas na Europa e a forma como os cidadãos do sul olham para os alemães, deveriam merecer reflexão. Porque não são mera retórica. E põem a nu o confronto entre duas visões da Europa: a que tudo quer centralizar e uniformizar e a que deseja a Europa dos países e das autonomias políticas e de decisão.
A crise da dívida pública e a incapacidade dos países do norte da Europa perceberem (ou quererem perceber) o que está em jogo, poderão levar a uma reformulação de um continente onde, como nos EUA, não há uma língua, uma bandeira e um hino único e congregador. Não é uma moeda ou uma unificação bancária que farão com que a Europa manobre a uma voz. As nacionalidades nunca deixaram de ser fortes nesta Europa. E desconfiam umas das outras por motivos históricos e culturais. Basta irmos à história para vermos como toda a política europeia foi feita com base na desconfiança. O equilíbrio europeu pregado pelo cardeal Richelieu baseava-se no princípio pelo qual nenhuma nação europeia podia expandir-se colocando em risco as demais. A destruição dos Habsburgos foi feita em 1648. Das suas cinzas nasceu uma Alemanha dividida em mais de trezentos Estados independentes. O imperador continuava a ser eleito, mas não tinha autoridade sobre eles. A Espanha e a França dividiram entre si zonas de influência. Dividir para estabilizar, era o lema, sobretudo na zona central da Europa.
Olha-se para a Europa de hoje e a crise económica pareceu estar a calar as forças que puseram em causa o centralismo político determinante nas últimas duas décadas. O sul curva-se, de mão estendida, perante o norte. As autonomias espanholas estão falidas. Na Itália as regiões também estão nervosas em termos financeiros. Na Alemanha a situação não está melhor: o governo federal, em Junho, anunciou um pacote de auxílio a 16 "Lander", os governos regionais, que em troca colocam o seu poder fiscal nas mãos do poder central. Berlim, com o poder económico, submete os que foram conquistados com o crédito fácil para comprar os produtos alemães. Bruxelas, com a uniformização de costumes e culturas (veja-se o escândalo que está a acontecer com as sementes "reconhecidas" pelos burocratas da União Europeia que um dia destes destruirão as espécies que não fazem parte das frutas, legumes e outras coisas "legais" e uniformizadas e portanto não poderão ser colocadas à venda). Está a assistir-se a uma centralização sem precedentes da Europa, entre Bruxelas e Berlim, que faz lembrar quando Napoleão, com as suas tropas e leis (a começar pelas penais e administrativas) tentou criar um império de pensamento único na Europa. A pressão financeira está a tentar fazer uma Europa uniforme à pressão. Faz lembrar uma história: em 1787 os EUA só conseguiram centralizar o seu poder federal quando o centro passou a gerir a dívida dos 13 estados originais do país. É isso que alguns querem fazer na Europa. Mas a dúvida é se num continente sempre tão polvilhado por disputas e diferenças culturais e mesmo com economias divergentes isso poderá acontecer. Ou se tudo se estilhaçará como alertou Mario Monti.
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