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João Carlos Barradas 30 de Março de 2011 às 11:50

A relutância dos credores

Uma reacção de repúdio ante os custos de resgate dos estados insolventes da eurozona é cada vez mais notória entre os eleitorados dos países responsáveis pela maior fatia do financiamento.

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O governo de centro-direita da Finlândia, ameaçado pela subida da extrema-direita nas intenções de voto para as eleições de 17 de Abril, obrigou a adiar para Junho o aumento da capacidade efectiva do "Fundo Europeu de Estabilidade Financeira" de 250 mil milhões de euros para 440 mil milhões de euros.

A Alemanha, por sua vez, outro dos seis estados da eurozona com rating triplo A, conseguiu o faseamento a cinco anos das contribuições líquidas para o financiamento do "Mecanismo Europeu de Estabilidade" a estabelecer em Julho de 2013.

Com eleições legislativas previstas para Setembro de 2013 o governo de Berlim evitou assim ter de injectar numa única contribuição cerca de 22 mil milhões de euros para o fundo permanente, garantindo maior folga orçamental a Angela Merkel.

Na cimeira europeia deste mês ficaram assim a claro alguns dos constrangimentos políticos provocados por uma relutância cada vez maior dos eleitorados da Alemanha e Finlândia, mas também da França ou Holanda, em apoiarem resgates de estados em risco de bancarrota.

O dúbio discurso de Merkel
Merkel, que começou por rejeitar qualquer tipo de resgate quando se tornaram óbvios os riscos de insolvência da Grécia, destacou-se ao sublinhar justamente as responsabilidades dos governos conservadores e socialistas de Atenas pelo descalabro orçamental e a crise de dívida soberana.

As declarações da chanceler sobre rigor orçamental, contudo, iludiram sempre o envolvimento da banca alemã na crise financeira com aplicações de risco.

No início de 2010 quando o descalabro de Atenas já ameaçava o euro a exposição da banca alemã à Grécia cifrava-se em 33 mil milhões de euros, somava 29,7 mil milhões quanto a Portugal, chegava a 156,4 mil milhões face a Espanha e atingia os 173,3 mil milhões no caso da Irlanda.

A chefe do governo de Berlim foi sempre condescendendo com os preconceitos do eleitorado alemão de que gregos, depois irlandeses, agora portugueses, futuramente espanhóis, belgas e italianos, seriam os únicos responsáveis pela crise financeira. A provável reestruturação da dívida da Grécia, o resgate iminente de Portugal e a necessidade de novos apoios de urgência à banca irlandesa irão agravar a situação a curto prazo e obrigar à renegociação dos termos de concessão de ajuda financeira, precisamente numa altura em que se começam a fazer sentir os efeitos de novas regras de regulação bancária.

Problemas que chegam da Alemanha
Na Alemanha os sucessivos fiascos de conservadores e liberais nas eleições estaduais, culminando na derrota em Baden-Württemberg, limitam a margem de manobra do governo privado de maioria na câmara alta do parlamento federal.

Angela Merkel não é contestada entre os democratas-cristãos, mas o líder dos liberais, o vice-chanceler e ministro dos negócios estrangeiros Guido Westerwelle, corre o risco de ser afastado pelos seus pares da liderança do partido.

A revisão da política nuclear será uma das questões essenciais para o futuro da coligação.
Na sequência do desastre de Fukushima o governo de Berlim suspendeu por três meses a decisão de prolongar por doze anos o funcionamento das 17 centrais nucleares alemãs que deveriam ser desactivadas em 2022.

Além de congelar a controversa decisão tomada em Outubro o executivo decretou o encerramento temporário de sete reactores por razões de segurança.

A manobra de recurso, que o ministro da economia Rainer Brüderle admitiu tratar-se de mero expediente eleitoral, acabou por fracassar em Baden-Württemberg.

Os elevados custos económicos de uma revisão da política energética alemã, renunciando ao nuclear que representa cerca de 23% da produção de electricidade, sob a pressão da oposição verde e social-democrata, terão consequências a nível europeu e irão complicar a relação entre os parceiros da coligação.

A polémica sobre a redução da carga fiscal, acordada com os liberais ao formar a coligação governamental em 2009, só poderá acentuar-se, por seu turno, caso Merkel, continue a sustentar a inviabilidade de cortes e isenções contra os parceiros do "Partido dos Democratas-Livres".

Nada de bom a esperar de Berlim
Algumas cedências terão de ser aceites pela chanceler em matéria de reforma fiscal e política energética para manter a coligação, sem alienar a eventualidade uma futura coligação com verdes ou social-democratas declaradamente opostos à indústria nuclear civil.

Os eventuais custos orçamentais implicarão que Berlim exija contrapartidas e garantias ainda mais inflexíveis aos olhos do eleitorado para salvaguardar a Zona Euro.

Às dificuldades dos insolventes, afundados em recessões com pesados custos sociais, soma-se o enfado dos credores.

Ao deixar na sombra as responsabilidades políticas pelas falhas na arquitectura do euro e o papel da banca internacional e das agências de rating na crise financeira, o discurso de muitos dirigentes europeus, e sobretudo de Angela Merkel, reforçou a ideia entre os eleitorados dos países credores de que não passam de pagadores injustiçados de desordens orçamentais de culpa estritamente alheia.

A responsabilidade de decisores políticos, económicos e financeiros portugueses, irlandeses e gregos é absoluta, mas não marcharam sozinhos para a bancarrota.


Jornalista
barradas.joaocarlos@gmail.com
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