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Rui Cerdeira Branco 04 de Junho de 2008 às 14:59

Allons enfants de la Patrie*

A demografia é como um navio porta-contentores carregado. Se nos limitamos a desacelerar quando o objectivo é parar, corremos o risco de levar meia cidade pela proa. Se, por outro lado, o que se pretende é inverter a marcha, a coisa só lá vai com os motores em marcha à ré e com o auxílio empenhado dos melhores rebocadores do porto.

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É por isso que, mesmo estando a taxa de natalidade em queda a nível planetário, ainda teremos de conviver provavelmente com mais de meio século de crescimento populacional, em termos absolutos.

À nossa escala nacional temos outros problemas demográficos, mas o fenómeno é o mesmo: estamos também a lidar com um porta-contentores carregado. Não fora ainda conseguirmos captar mais imigrantes do que os emigrantes que continuamos a enviar por esse mundo fora e, no ano passado, fruto de um número de óbitos superior ao de nascimentos, o nosso cantinho teria mesmo ficado mais espaçoso.

Confesso desde já que não tenho grandes ansiedades quanto a um decréscimo populacional por si só, tal como não exultei quando atingimos o “número mágico” dos 10 milhões há alguns anos, mas perante a confirmação de um cenário de queda pronunciada da natalidade e perante a falta de preparação que há na sociedade portuguesa para acomodar, integrar e conviver com os idosos que tem já hoje tenho sérios motivos para estar preocupado com o que se avizinha.

Comecemos pelo que não devemos fazer. Devemos evitar simplificar o problema a culpados fáceis como sejam o egoísmo, a cultura do prazer, o individualismo e o consumismo. Também não devemos resumir o problema ao terror. Seja ele o terror das pensões se esgotarem, ou o de só termos lugar neste mundo enquanto formos úteis numa lógica económica, ou ainda o de estarmos em vias de extinção enquanto nação e cultura. Convidar à procriação tendo por base a culpa e o medo, parece-me algo disparatado, ainda que seja um artifício político ancestral e ainda muito em voga por estes dias.

O que fazer então? O objectivo mais realista parece-me ser o de evitar cair na situação mais extrema. Obviamente que um complemento migratório poderá ser relevante neste propósito, mas julgo ser desejável apostar fundamentalmente em duas vertentes. Por um lado, procurar minimizar o ritmo do envelhecimento demográfico e, por outro, acomodá-lo, preparando a sociedade para encarar os idosos como uma parte integrante e valiosa.

A palavra-chave no meio de tudo isto é Família. Sem nos enredarmos em concepções religiosas ou a priori ideológicos, temos de encarar a Família – todas as famílias – como o vértice em torno do qual se organiza a sociedade. O seu papel deverá ser o de fulcro protegido e não o de respaldo criado para aguentar todas as vicissitudes próprias da desorganização e inconstância política e económica de um país.

Atentemos na natalidade: o caminho mais rápido para o seu incremento passa pelo alinhamento entre os desejos do coração e as capacidades do torrão em que se vive. Os desejos do coração são conhecidos: em Portugal, como pela Europa fora, vivem milhões de famílias frustradas por quererem ter mais filhos do que os que acabam tendo – falo de um dado estatístico, note-se. Quanto às capacidades do torrão, eu diria que estamos perante um ciclo vicioso onde se parece acreditar piamente que a natalidade é um obstáculo ao trabalho e um empecilho à produtividade. Um sentimento que tem por cá um inusitado fervor, só justificável pelo fraco conhecimento da natureza humana e do encadeamento de acontecimentos fulcrais que dependem da sã sobrevivência das famílias.

Por último, atentemos nos idosos: chegar a velho, será tanto mais dramático quanto menos nos ocuparmos de pensar esse período das nossas vidas, individual e colectivamente. Notem que o que está em causa não é a eficiência económica, nem apenas promover a previdência financeira: mais do que orientá-los para a produção, o que julgo merecer preocupação é conseguir orientá-los para a vida, para a nossa vida. Eles somos nós.

Concluindo, temos de encarar de forma integrada e transversal as condições quotidianas que permitimos e oferecemos às famílias. Ignorar uma reflexão profunda da nossa organização social e económica, presente e futura, partir com ligeireza para pacotes de medidas avulsas e, por vezes, contraditórias, é garantidamente disparar ao lado e é um comportamento irresponsável que pagaremos muito caro, se perdurar. Tentemos ser felizes, será um bom princípio.

* A França é hoje um caso de estudo internacional para muitas outras nações, devido ao sucesso da sua longa e militante política pró-natalista.

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