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Filipe de Morais Vasconcelos - Administrador Executivo da The Equator Company
17:20

O fio que une: uma visão sobre o Global Risks Report 2026 do World Economic Forum

O relatório nota que riscos como recessão e inflação ganharam peso no curto prazo, e que o risco de rebentamento de bolhas de ativos cresce num contexto de dívida e retornos incertos em tecnologias de fronteira. Traduzindo: a transição vai ser feita num ambiente mais caro, mais volátil e mais politizado.

O Global Risks Report 2026 do World Economic Forum condensa, num único gráfico, um paradoxo que define o nosso tempo: no curto prazo tememos aquilo que fazemos uns aos outros, no longo prazo tememos aquilo que fizemos ao planeta.

Fórum Económico Mundial classifica riscos globais a curto e longo prazo

O gráfico coloca lado a lado os riscos considerados mais severos, a dois e a dez anos. Não é uma previsão científica do futuro. É um barómetro de expectativas de impacto daquilo que decisores acreditam que pode correr pior e, por consequência, para onde tenderão a orientar capital, políticas e prioridades. O retrato assenta no Global Risks Perception Survey, um inquérito anual com mais de 1.300 respostas de líderes governamentais, empresas, academia, sociedade civil e organizações internacionais.

O próprio relatório enquadra 2026 como uma “era de competição”, em que fragmentação e confronto substituem cooperação e confiança, e em que muitos inquiridos antecipam tempos “turbulentos” no curto prazo, com agravamento no horizonte de dez anos.

A dois anos, o gráfico reflecte exatamente esse estado: o risco dominante não é o clima, é a fricção humana. No topo surge a confrontação geoeconómica, seguida de desinformação e polarização social. Maior pressão sobre comércio, investimento, cadeias de abastecimento e acesso a recursos, com risco real de escalada para guerra económica através de bloqueios, restrições à exportação, cancelamento de contratos e controlos de capitais são possíveis. A insegurança contemporânea já não se mede apenas em tanques. Mede-se em tarifas, semicondutores, minerais críticos, energia, financiamento e acesso a tecnologia.

A dez anos, a hierarquia muda e a realidade biofísica impõe-se. O topo passa a ser o risco ambiental, como eventos meteorológicos extremos, perda de biodiversidade, colapso de ecossistemas e mudanças críticas nos sistemas da Terra. Cinco riscos ambientais entram no top 10. E a confrontação geoeconómica, que domina o curto prazo, cai para 19.º no longo prazo. O mundo parece dizer duas coisas ao mesmo tempo: no imediato, tememos o que Estados e sociedades fazem uns aos outros. No futuro, tememos o que todos fizemos ao sistema físico que sustenta economia, saúde e segurança alimentar.

A componente económica fecha o circuito. O relatório nota que riscos como recessão e inflação ganharam peso no curto prazo, e que o risco de rebentamento de bolhas de ativos cresce num contexto de dívida e retornos incertos em tecnologias de fronteira. Traduzindo: a transição vai ser feita num ambiente mais caro, mais volátil e mais politizado.

Ou seja, para resistir é necessário ter maior capacidade de continuar a operar sob choque, com redundância, flexibilidade e recuperação. Significa energia menos exposta e mais diversificada. Cadeias de abastecimento menos concentradas, em mais locais e robustas. Água deve ser tratada como ativo crítico. Infraestruturas adaptadas ao calor e à precipitação extrema. Natureza entendida como infraestrutura que protege, arrefece, absorve e estabiliza. Cibersegurança e integridade da informação tratadas como condições de continuidade. E significa aceitar, sem romantismo, que a coesão social não é um apêndice, é o terreno onde todas as transições se ganham ou se perdem.

É por isso que sustentabilidade passou a ser infraestrutura de negócio. Não como retórica, mas como critério de engenharia e de gestão. Sustentável significa reduzir vulnerabilidades estruturais, físicas, económicas e sociais, sem destruir a capacidade de regeneração dos sistemas de que dependemos. Se a década for definida pela competição, a verdadeira vantagem não será ter o plano mais bonito. Será ter sistemas que não caem quando o chão treme.

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