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Nuno Thomaz 15 de Junho de 2005 às 13:59

O filme do défice

O bombardeamento com o tema é tão cerrado que, não tarda muito, tenho os meus filhos ( de 9, 7, 5 e 2 anos ) a perguntarem-me o que é isso do défice!

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Uma noite destas fui ao cinema com a minha mulher. Decidimos ir ver um filme que sabíamos à partida que era pesado, mas a actualidade e a importância do tema justificavam a nossa escolha. Tratava-se de um documentário, de título «Novidade para quem?», acerca da difícil situação que o nosso país atravessa – o défice das contas públicas.

A escolha do filme revelou-se-nos acertada, pois a encenação era de tal modo brilhante que, não fosse o trágico cenário em que o país se encontra, chegaria mesmo a ser cómica. A maneira como o elenco – José Sócrates, Jorge Coelho, Vítor Constâncio e Jorge Sampaio –, de capacidades artísticas fora do normal, representou a surpresa, o choque e o drama foi absolutamente extraordinária. Atrever-me-ia a dizer que todos estes actores deveriam ser galardoados com uma nomeação para Oscar, nomeadamente nas categorias de melhor actor principal e secundário.

Como amante e potencial crítico de cinema, assim que o filme terminou, tive a oportunidade de comentar com a minha mulher cada um dos desempenhos dos já referidos actores:

José Sócrates: Ao longo da campanha eleitoral, demonstrou uma capacidade de representação invulgar. Falar convincentemente da criação de 150 000 postos de trabalho, do aumento das pensões de reforma para cerca de 300 000 idosos e da manutenção dos impostos vigentes é obra... A insistência na importância de um discurso positivo, que ofereça confiança aos portugueses, sabendo de antemão que o défice sem receitas extraordinárias era superior a 6% e que todas estas promessas nunca poderiam ser cumpridas foi uma prova superada para um dos mais recentes e consagrados ( por uma maioria absoluta! ) actores do cinema português. Numa escala de 20 valores: nota 17.

Jorge Coelho: Revelou mais uma vez que tem uma larga experiência  como actor mas também como produtor.

Impecável sobretudo na cena que protagonizou à saída do Palácio de Belém quando falou da dimensão do défice. A forma dramática com que expressou a sua surpresa relativamente a uma situação que todos adivinhávamos e que o próprio tinha conhecimento há muito, faz deste actor uma peça fundamental do panorama contemporâneo da sétima arte nacional. 18 valores.

Vítor Constâncio:  Para alguém que já desempenhou o papel de actor principal por diversas vezes, não foi difícil aceitar o papel de actor convidado. No seu estilo muito próprio a que já nos habituou, revelou-se profissional na gestão dos «timings» de entrada e saída de cena, de forma a trabalhar para o elenco socialista. Nota 16.

Jorge Sampaio: Quando pensávamos ser impossível este actor ter um melhor desempenho que no passado – como secretário-geral do PS e depois como presidente da câmara de Lisboa –, eis que somos surpreendidos pela mais recente etapa da sua carreia artística!

Muito embora tenha sido convidado para um papel secundário, a sua representação foi de tal ordem que acabou por desempenhar um papel principal – cuidado que se a moda pega vai certamente complicar a vida dos actores principais!

A opção de, numa primeira fase, não convocar eleições, para o fazer mais tarde, quando o PS se encontrava já preparado para o confronto eleitoral foi simplesmente extraordinária!

Quem se poderá esquecer da famosa frase «há mais vida para além do défice»? Com a proeza de fazer parar o país, convencendo tudo e todos de que valia a pena fazer um orçamento «faz de conta» provou ser o actor que mais contribuiu para o filme do défice. Nota 19 ( porque nunca dei um 20 ).

 De volta a casa, ligamos a televisão e... novamente o défice. O bombardeamento com o tema é tão cerrado que, não tarda muito, tenho os meus filhos ( de 9, 7, 5 e 2 anos ) a perguntarem-me o que é isso do défice!

Mas, se o assunto é de facto tão preocupante, porque não concordo eu com as medidas tomadas pelo governo? Só porque o governo é do PS? A minha mulher interroga-me. É que apesar de admirar a coragem inegável do Primeiro Ministro e do Ministro das Finanças por atacarem, pela primeira vez, alguns temas que são autênticas «vacas sagradas» em Portugal, eu não concebo que , por teimosia ou oportunismo político ( vêm aí as autárquicas... ), o governo aumente os impostos, o que poderá ter efeitos nocivos na nossa economia, quando, ao invés, deveria cobrar portagens nas tão faladas SCUT. Custa acreditar que, por conta de uns quantos portugueses e outros tantos turistas que andam pelas SCUT sem pagar, nós todos vamos pagar mais IVA e a gasolina mais cara.

Nessa mesma noite, depois do cinema, depois da televisão, depois de muito debater sobre o assunto, acabámos por concordar que isto do défice é mesmo um filme...

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