O Mandrake Borges
Quando, em 1934, os americanos procuravam um escape para a crise, surgiu nas páginas dos jornais um novo herói de Banda Desenhada. Chamava-se Mandrake. Através do hipnotismo, com um gesto, ele transformava a arma dos bandidos num ramo de rosas ou numa pomba.
Quando, em 1934, os americanos procuravam um escape para a crise, surgiu nas páginas dos jornais um novo herói de Banda Desenhada. Chamava-se Mandrake. Através do hipnotismo, com um gesto, ele transformava a arma dos bandidos num ramo de rosas ou numa pomba.
Chegados a 2012, o Governo descobriu o seu Mandrake. Chama-se António Borges e é ministro sem o ser. Tudo tem a ver com aparências ou hipnose colectiva. O Governo quer, ao utilizar António Borges, desresponsabilizar-se e transformar as críticas às suas decisões em inocentes pombas. Não é verdade. Quem trata das privatizações do Estado tem de ser responsável político. Não é uma questão técnica nem apenas de contabilidade. É política. António Borges nunca foi um verbo na política nacional. Sempre foi um pretérito imperfeito. Foi o quase salvador, o quase ministro das Finanças, o quase ideólogo dos liberais. Agora é quase ministro. É quase administrador da Jerónimo Martins.
António Borges até pode ficar impressionado por os portugueses viverem em alegre harmonia enquanto os salários implodem. É um equívoco: a panela de pressão está a rebentar. Pode achar que "as crises são momentos de limpeza". É verdade, como diria Schumpeter. Deveriam ser de destruição criativa. E não de aniquilação anémica, como está a suceder por aqui. É um erro político uma área sensível como a das privatizações ser gerida em "outsourcing". Pedro Passos Coelho, ao acolher António Borges, deveria nomeá-lo ministro. Ou não contar com ele. Colocá-lo no limbo como um Mandrake que faz hipnotismo à medida das necessidades é um erro. Há magias que se pagam caro.
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