pixel

Negócios: Cotações, Mercados, Economia, Empresas

Notícias em Destaque
Fernando Sobral - Jornalista fsobral@negocios.pt
20 de Setembro de 2012 às 23:30

Sidónio Pais e a dança da chuva

O diploma que vai hoje, sexta-feira, a votação

Este Governo, eleito para salvar o país da bancarrota, tem uma agenda ideológica que ultrapassa isso. O elogio de Wolfgang Schäuble a Vítor Gaspar, que ultrapassou as meras palavras de encorajamento, mostra até que ponto a ligação ideológica entre o núcleo de poder português e alemão é umbilical.

A 14 de Maio de 1918, Sidónio Pais, que tentou eliminar o caos da República mas que também acabou por tropeçar nos seus sonhos, fez um discurso no Campo Pequeno, onde apelava a uma espécie de contrato social que se tinha estilhaçado: "Todas as classes sociais se encontram unidas desde o nobre ao mais plebeu, pulsando todos no mesmo sentimento pátrio, por terem reconhecido que era necessário salvar a Nação. Como chefe de Estado entendo que sou chefe de todos os portugueses e que, como fui eleito pelo povo, que pelo Povo e para o Povo devo viver". As situações de criação de um consenso social que mitigasse as fragilidades das elites portuguesas, incapazes de criar um modelo para Portugal e que delapidaram pimenta, ouro e fundos da União Europeia em proveito próprio, sempre foi uma tentativa de iludir essa falência financeira, política e moral de diferentes regimes. Mais democráticos, mais autoritários ou ditatoriais todos acabaram por falhar numa coisa: ensaiarem a capitalização do país para lhe darem um músculo económico que não ficasse dependente das benesses do Estado a favor de alguns.

Todos falharam. E, depois do 25 de Abril, a democracia política continuou a seguir esta rota de acumulação de algumas elites à sombra do Estado em desfavor de todos os portugueses. Estes foram iludidos com crédito infinito e hoje paga-se o pecado com juros. Mas é aqui que se joga um outro elemento determinante. Este Governo, eleito para salvar o país da bancarrota, tem uma agenda ideológica que ultrapassa isso. O elogio de Wolfgang Schäuble a Vítor Gaspar e às suas medidas, que ultrapassou as meras palavras de encorajamento, mostra até que ponto a ligação ideológica entre o núcleo de poder português e alemão é umbilical. Portugal é o laboratório para a Alemanha mostrar aos países do sul desalinhados com as suas posições, a Itália e a Espanha, que o seu modelo é que é bom. E Passos Coelho, Gaspar e António Borges estão a aplicá-lo com empenho. Por isso querem tornar Portugal numa economia exportadora como Taiwan ou Singapura, com baixos salários, e onde o mercado interno é irrelevante. Ou seja, será apenas uma economia exportadora comandada por multinacionais que aqui encontram um ambiente empresarial ultra-liberal. É por isso que a ideia da TSU não é inocente.

Mas a forma como é lançada tem a ver com a fragilidade da elite empresarial portuguesa, como mostrou há dias António Pires de Lima com grande clarividência. Passos Coelho só quer consenso social para o que lhe interessa. E o contrato social que norteou as sociedades ocidentais desde há mais de um século é para ele uma chatice. De Sidónio Pais só deverá querer guardar a herança da criação de uma nova sopa dos pobres. Espera-se que Cavaco Silva consiga equilibrar o delírio reinante no Governo. Não será fácil, porque a elite política nacional é hoje de uma magreza intelectual assustadora. Há quem esqueça que a situação em que vivemos tem a ver com o delírio de anos sucessivos dos partidos do arco do poder, a que Sócrates acrescentou velocidade "kamikaze". Continuamos dependentes da ajuda externa e muitos políticos já andam à volta deste Governo tolo, mas manietado, a pedir que chova pregos do céu. Há um grande problema: a dívida e o défice. E há um plano paralelo, ideológico, que o Governo quer implantar em Portugal à sombra das medidas de austeridade. São duas questões. E é para elas que todos devem estar atentos.

Ver comentários
Ver mais
Publicidade

C-Studio é a marca que representa a área de Conteúdos Patrocinados do universo Medialivre.
Aqui as marcas podem contar as suas histórias e experiências.

Publicidade

C-Studio é a marca que representa a área de Conteúdos Patrocinados do universo Medialivre.
Aqui as marcas podem contar as suas histórias e experiências.

Publicidade

C-Studio é a marca que representa a área de Conteúdos Patrocinados do universo Medialivre.
Aqui as marcas podem contar as suas histórias e experiências.